quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Ultraje (parte 2)

Por que estranha razão deixaste de me falar as importantes falas?

Fiquei-te estranha ou, empiorando, fizeste de mim uma tua desconsiderada, inexistente?

Uma tua nada?

Estranho como ainda ontem - em meio de beijos e carinhos - me juraste as juras sem que sentisse no teu olhar notáveis diferenças, mas está bem:

Disfarce é coisa de homem quando é homem.

Quando homem é macho.

Homem um dia sim outro dia não, e até mesmo na mesma hora, a mesma cara: máscara diabólica com sorrisinho de anjo! Esgar vazio de tudo ou cheio de nada, no que vai dar no mesmo.

Estou porém acostumada a brutais derrames sanguíneos com as minhas ilusões.

E não seria agora por mais esta uma que me haveria de deixar derrocar feita escombro:

ruína de mim.

Isso, nunca!

Sabes onde moro, quem sou e para onde quero ir, junto contigo.

Deixo portanto o restante para as tuas indecisões, teus apagamentos de memória de mim quando não me falas as importantes falas dos teus falares...


II

Mariazita


... Até que te falaria sempre essas todas falas, bem sabes. Só que por vezes tem um problemazito: minha cabeça não pensa só quando e como eu quero, com as palavras que eu conheço e falo e também não deambula apenas pelas planuras que eu mais gostaria; por vezes ela sozinha por outras distantes plagas, inacompanhável, livre quase que nem anarquista, e sem mim.

Nessas horas fico outro, fico errante fera só no farejando os cheiros, no seguindo instintos da carne – que não é fraca, como bem experimentas.

Na verdade meu coração te pertence, mas só durante dois dias de cada vez ele aguenta. Porque no terceiro dia já a casa toda fica só cheirando a eu próprio, minha pele toda exalando para dentro, fazendo-me demasiadas estranhas repulsivas catingas. E então aí fico-me todo insuportável, e logo logo o mato grande me chama em ciosos apelos gritados pela bicharada toda, ao mesmo tempo, na mesma lua…

E aí é chegada a hora de partir.

Por tudo isso, Mariazita, fica fria, sempre estaremos juntos.

E não penses nas ruínas e nos escombros: isso são os assuntos só para os engenheiros civis, não para as mulheres, em suas cartas chorosas.

Teu, Zé Kilama

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

It's only words...

As palavras querem-se como diamantes – polidas, lapidadas, densas e brilhantes?
Ou como os gritos, animais, irracionais, brutais, opacos…?
Ou como os gestos e os olhares, gramaticalmente inexprimíveis?
Palavras para serem palavras nunca deveriam poder ser escritas. Antes deviam ser como olhares, espantos, espasmos, gestos ou gritos.
Num mínimo admissível.
Ou não?
Nim?
Quem chega depois do facto que pretende exprimir não pode aspirar a exprimir seja o que for.
E elas sempre surgem depois, atrasadas e irritantemente condicionadas à erudição da sachola de cada um.
Sobretudo nas tragédias, e nas cartas de amor, também; o que nos manda de regresso a outras tragédias…
Digamos que as palavras são as nossas prostitutas baratas preferidas…
Ao escrevermos as palavras, secamos as lágrimas, apagamos o sorriso na concentração de as escrevermos correctamente e, por isso tudo, fechamos a alma que lhes emprestaria algum sentir. Alguma autenticidade, o exacto contrário da palavridade.
Todavia se vão acendendo algumas luzes, com elas…
E é assim iluminados que nos é facilitado o mentir em espectaculares acrobacias, tarar vidas em juras de nunca mais, arruinar futuros em promessas de logo se verá - aliás como qualquer fazedor de história, que faz com elas a verdade verdadeira das actualidades que se vão verdadeirizando de forma actualizada a caprichos de chefe, em flick-flacks e em pino, mas primeiramente sempre como palavras, palavras-chave intentando descrever factos porventura acontecidos, porém nunca assim – daquela forma – acontecidos.
Palavras são apenas palavras, meu!
Flores, apenas flores…
Símbolos e mais símbolos tentando enganar-nos a verdade do melhor preferirmos nada, ou o silêncio das bocas e das mãos.
Ainda ao menos se elas fossem – de facto - pactos de rendição, desistências, insistências, leis, contratos, confidências de estado…?!
Coincidências, pelo menos…!
Se ao menos fossem gritos, raivas, palpites, inércias, insónias e quedas de impérios…
Talvez que tudo isso me impusesse uma comunicação em palavras…
Caso contrário ou diferente, nunca rebaixarei a expressão dos meus sentimentos à reles condição de palavreiro!
Palavras?
Leva-as o vento!
E quando não, se forem ridículas, aquelas ridículas palavras de amor, essas leva-as o carteiro, seladas em carta, só para que o vento as não leve também…

Ah!, como eu tenho nojo das palavras que são palavras…
Como me repugnam as palavras que se escondem dessa vergonhosa condição de meras palavras tentando ser outra coisa além de palavras: veículos abandonados nas bermas da vida por avarias várias e sempre disponíveis para serem catadas por quaisquer cretinos…!
Palavra que é palavra é inexprimível, incaligrafável; é não-palavra, e logo não existe.
E por tudo isso, minha amiga, manda-me palavras, dessas mesmas que agora te falo, inefáveis, porém impressas – se possível - nas plásticas pétalas das rosas vermelhas da nossa amizade…
Melhor te dizendo: silêncios.
Exemplastifiquemo-nos em palavras vermelhas de plástico com símbolos de flor…
Com sabor a água, de preferência.
Mas com ternura!
Please!

Morreram os jingongos...

Nós - os amigos caluandas - andamos a morrer todos muito depressa, à vez, mas nas vezes que nem ninguém ainda esperaria. E pior: longe de casa.
Na semana passada embarcou o último jingongo, o Mido Zé, irmão de Zé Mido. Antes tinha subido o Chico Maravilha, o Airosa, o João Bula, o Zecazito, o Zé Mido e tantos outros. Agora foi a vez de Mido Zé, jingongo de Zé Mido, sem komba nem destaque nenhum para prestígio daquele adefuntado caminho de aqui, no preciso aqui desta fria e longínqua Tuga - dificilmente suportado sem família mais nenhuma que não sua mulher e seu filho, Mido Jr.
Quando o telefone me avisou, nem quis acreditar. Rapaz saudável, bonitaço, angolano descendente de mistura exacta da Coimbra branca com a Benguela mulata – a das todas planuras. Cabrito mesmo, de olho amarelado. Mas afinal todas as bonitezas eram só desvantagens e impotências perante os enfartes miocárdicos que se lhe acometeram, covardemente, quando bebia um sucedâneo de caporroto. Sabemos agora.
Foi lá naquele descaracterístico Ribatejo que tudo se passou – disseram-me os choros do telefone: Mido Zé tinha tomado todas nessa véspera, e até tinha falado para a mulher na hora do deitar:
-Mulher!, parece que alguém me chama de muito longe: ouço vozes gritando aqui no peito, como que berrando o meu nome, numa aflição muito estranha que também me aflige...
-Dorme, querido!, isso é normal quando bebes demais! – embalou-o em sossegos e costumeiros carinhos.
Mas jingongo Mido sabia que não eram bem assim as coisas. Nessa hora certamente que se lembrou de todas as estórias que os mais velhos sempre falavam sobre os irmãos jingongos:
Sofrimento de um é tortura no outro! Na exacta mesma hora!
Todavia, nessa noite, nem as sábias certezas dos mais velhos chegaram para o desacordar:
Mido Zé deixou-se embarcar no chamamento longínquo de Zé Mido, e não voltou mais. Ainda.
Antes porém tivera tempo de gravar a fogo de lábios um longo beijo na face do seu Junior adormecido, como que para se eternizar. Mas foi tudo o que lhe restou das nenhumas forças restantes.
No dia seguinte tocaram-se os discretos sinos por sua curta vida, longe de casa, e nem mesmo os amigos de sangue como eu lá estavam para partilhar tanta solidão...
Porém, a esta hora – óbitos cumpridos – já o imagino outra vez bicicletando em disputas acrobáticas com o seu jingongo irmão no ex-Largo Serpa Pinto, não antes de me terem assobiado na varanda irrecusáveis convites de infância feliz...
Aiué!, meus irmãos jingongos!
Há dias, passado que estava o tempo para o esquecimento, e também após eu ter bebido todas, pareceu-me ouvir, vindo do quintal, um fiu-fi-quiu, fiu-fi-quiu muito familiar...
Levantei-me da cama, trôpego bêbado e berrei para o quintal, furibundo:
- Ó jingongos, seus fidasputas! – não me chamem agora que tenho meu neto para cuidar!
E os jingongos Emídios, meus irmãos até depois de todo o nada - suas eternidades -, deixaram de mais me assobiar.
Ai ué, meus irmãos jingongos…!
_____________
cabrito - mistura de mulato com branco
caporroto - aguardente; bagaço de cana de açúcar ou de milho
comba - cerimónia fúnebre
jingongos - irmãos gémeos

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

O blazer


O Ferroviário – vulgo ferrobico – era o campo predilecto para tais e tais ousadias, todos os fins-de-semana. Ou quase. Quando não, virava-se para o campo do Benfica, ou para o do Sporting: o importante era farrar e beber e comer e sabe-se lá beneficiar de que surpresas mais. Tudo isso na pendura, sem gastar um centavo. E sempre, sistematicamente todos os fins-de-semana.
Festejavam-se por ali os casamentos e outras indistintas farras a pretexto de alguns carnavais e sei lá mais do quê.
Lembro-me nitidamente de que – nos casórios – todos os assuntos de viabilidade pendura se resolviam com um blazer, de preferência azul, com gravata ou lencinho de seda ao pescoço, tanto fazia. O importante era estabelecer a confusão nos mordomos compadres: os do lado do noivo ficavam a pensar que éramos convidados do lado da noiva; os da noiva pensavam exactamente com a mesma credulidade – ou seja - que éramos convidados do lado do noivo.
Técnica infalível.
Havia mesmo quem se dirigisse – com a maior cara de pau possível – aos familiares da noiva ou do noivo expressando os seus desejos de felicidade eterna: mas esses eram os mais artistas.
Ah!, mas possuir um blazer que estivesse sempre disponível? Não era desiderato fácil, meus irmãos: os candidatos farristas eram inúmeros e os blazers apenas alguns.
Porém nesse caso, quando o assunto do dito cujo blazer não era resolvido – pois o dono do casaco podia estar noutra festa, usando-o – aí já a tanga tinha de ser outra e então havia que se recorrer ao plano B, também óptimo para amolecer os porteiros: alegava-se pertencer ao conjunto musical que abrilhantava a festa, ser o sonoplasta, o empresário da banda, o irmão do guitarrista ou, em derrotado e derradeiro recurso, apelar a todas a razões humanistas da misericórdia porteira.
Alguma coisa haveria que resultar.
Lembro-me de todos os cromos destes tempos: cito-me só a mim, por educação e delicadeza com os demais: que éramos muitos!
Mas foi num desses casamentos que eu quase também. Não fora o pai da garina pertencer a um reino animal quase já extinto, até que eu talvez também ali organizasse minha própria farra de casório – sem porteiro nem nada – com aquela mulata de olho verde com quem, numa só dança, acabara de me perder em paixões. E muitas mais tesões, a bem dizer.
Recordando bem, foi nessa dança que nos prometemos em reproduções de muitos lindos filhos para encher nossa cubata, fazermos nossa própria sanzala.
Mas está tudo bem: falhou tudo tudo e até acabei solteiro e impai, porém feliz e ainda militante de farra!
Todavia a sonhada sanzala a me azucrinar a cabeça...
Quanto à mulata – esquecendo seu troglodita pai – mantenho-me absolutamente nas mesmas paixões com ela. Porém tudo só desfrutando nas maiores clandestinidades, em furtivos amores: tudo só no viajando por secretas paisagens lunares, sonhos e mais sonhos incrementados com o solidário apoio da minha saudosa cangonha, agora substituída por whisky martelado...
Porém nos finalmentes disto tudo um problemazinho ainda subsiste: ela não me sabe agora nem minimamente ainda existente e muito menos tão assim ainda fruidor dos pendurigmas daqueles tempos, apesar do meu agora imenso stock de blazers viver condenado a renitentes desusos. Faz tempo...
E entristecendo mais o assunto: ela - a mulata de olho verde - já nem consegue imaginar-me agora assim tão calmo, tão tolerante, tão epistemologicamente condescendente: sobretudo quando analiso mesmo todas as makas do passado com a melhor e a mais politicamente correcta leveza dos tempos presentes.
Por isso, acertadas as contas com a história, e ainda com minha nossa sanzala nos horizontes... :
- Vamos dançar, olhinho verde?
_________________
cangonha - liamba; canabis-sativa
farra - festa
garina - moça; rapariga
maka - briga
pendura - borlista
tanga - trapaça; mentira esperta

domingo, 8 de Novembro de 2009

Dolorosas Coincidências

E as coisas todas se passaram mais ou menos assim:

Para avó Clarisse as horas eram todas de doer, pelo menos enquanto não chegasse a última, derradeirenta, determinada por bala perdida ou mina pisada nos vulgares caminhares para o mercado: talqualmente chegou a seus todos dois filhos aliás, tombados nos sangrentos combates da guerra e também a seu marido, esborrachado nas pernas por mina bandida. Mas nisso ela nem queria mais se deter, para não se derrotar fácil.

Quitandeira de nascença e vocação, avó Clarisse vivia agora só preocupada com os netos, todos orfanzados e magrelas, barrigas dilatinchadas. Porque também as vidas todas estavam difíceis para as compras e vendas, quase impossíveis para matar as fomes deles, carenciadíssimos de tudo desde a nascença.

Alguns vizinhos, sensibilizados e curiosos ainda lhe perguntavam, por vezes: cadê as mães das crianças?

A essa curiosidade Clarisse dizia nada, tão dolorosas lhe deveriam ser as lembranças dessas todas mães dos seus netos. Duas, precisamente: a Dulcideusa e a Órora. Uma, quitata de profissão; a outra, também quitata, mas só pelos divertimentos. Cada uma mãe de cada um, Simão e Gabriel, os infantis órfãos.

Por isso Clarisse se silenciava com tais lembranças, agora que os seus dois filhos já nem eram mais ninguém vivo. Havia que tocar a vida para a frente, continuar quitandeirando com a fruta que houvesse. E a que não.

De regresso a casa, quais passarinhos de bico no ar, os netos se penduravam nos seus todos garridos panos, trepando-lhe até à cara, à boca, como que pedindo beijinhos, mas afinal era só mesmo comida.

E lá nas bocas e mãos deles ela lhes chegava umas frutas, bananas desvendidas, quase sempre, outras vezes com mais uns raros mimos de avó, quifufutila docinha e fofa oferendada pelas outras quitandeiras colegas.

Para os teus mininos!, muximavam!

Os meninos se alambuzavam e logo logo adormeciam, automaticamente. E só então Clarisse pensava na casa para cuidar, nas roupas para lavar, nas novas frutas para comprar, nas contabilidades dos lucros e dos prejuízos, mas nunca no cansaço que já a ia derrubando, ainda a tarde nem ia pelo meio.

E tudo isso sem homem para lhe ajudar nos todos seus afazeres, mutilado de guerra que lhe restava o marido, assim para ali arrumado nos chãos da palhota, todo dependente, só com as incumbências de não deixar as crianças sair na rua, esgotosas e fedorentas ruas, trazedoras de doenças fatais.

Mas outros melhores dias viriam na vida de avó Clarisse, certamente. Esta era a esperança cantada todos os dias nas suas preces e orações, baixinho, na hora de por fim se estender na esteira, estouradíssima.

Dias decorridos, um dito representante do governo, todo militarizado nos seus camuflados, bateu na sua porta em busca de Samuel, o mutilado da mina assassina…

É que chegaram as suas próteses – anunciou altissonante – A oferta do governo angolano via governo inglês, princesa Diana e amigos…tá lembrado, Samuel?

Estava lembradíssimo, mas porém já incrédulo por tantos anos de espera.

Arrastou-se tartarugando até a porta da cubata, coração a bater, a bater…

Você que é Samuel, o mutilado? – perguntaram os camuflados

Que sim senhor, era ele mesmo, mutilação às vistas.

Pois então se quer receber suas próteses que entretanto já chegaram – sentenciou-lhe o militarizado - vai ter de pagar mil dólares, agora mesmo, e já pode ir buscar elas amanhã, no hospital militar. Lá você pergunta por mim, coronel Tchibanga, e logo lhe entregarão as próteses.

Que estava muito bem, mas não tinha esse dinheiro.

A não ser que Clarisse…

E chega Clarisse do mercado, outra vez estouradíssima, bananas sobrantes das vendas para almoço dos netos, mais quifufutila oferendada pelas colegas, para os seus mininos.

Que se passa aqui? - pergunta a avó:

Aiué, mamã!, chegaram minhas pernas novas, mas não temos dinheiro para pagar… - chorou-se Samuel

Quanto é? - quis saber Clarisse.

Miiiil dólaresss! - choramingou Samuel.

Tá bom, sossegou-lhe a mulher, vou aí dentro e já vejo o que se pode arranjar com as poupanças das vendas das bananas…- disse Clarisse perante os espantos de Samuel com tais secretas poupanças.

Passado pouco tempo, depois de descobrir escarafunchando no chão da cubata a lata repleta de kuanzas, Clarisse entregou tudo nas mãos dos militares.

Mas isto não são dólares, são kwanzas!, isto não presta para nada! – disseram, enojados.

É o que só tenho mesmo, meus irmãos senhores, camaradas!- lamentou-se Clarisse.

Tá bom, vai lá no hospital militar amanhã então buscar suas pernas.- disseram os camuflados arrecadando os insignificantes kwanzas de Clarisse.

E no dia seguinte, bem cedinho, lá foi Clarisse ao hospital buscar as próteses de seu Samuel.

Mas o coronel Tchibanga não existiu nunca ali, próteses muito menos, e das suas poupanças em kwanzas, até falar delas lhe foi desaconselhado…

O mundo todo fez-se repentemente de escuridão total, e Clarisse não voltou mais para casa…

Não quis. Não teve forças e, claro, desistiu-se.

Apesar de seus mininos e de seu Samuel, o mutilado.

Passaram-se os muitos anos.

Acasos da vida, em buscando eu minha árvore genealógica, quase irremediavelmente esfrangalhada pelas vicissitudes da guerra, vou encontrar avó Clarisse como minha avó paterna, e a mim próprio como um daqueles mininos que lhe trepavam pelo colo em busca de comida…

Devastidão!

E até hoje que até nem consigo mesmo adormecer tranquilamente, apesar do anjo Gabriel, meu xará, me garantir protecções impossíveis...

segunda-feira, 6 de Julho de 2009

João sim e Miguel não

Noite de S. João, no meu quintal, dando-se o inaudito caso:
meu sobrinhito Miguel trouxera um balão - gigante, balão-balão, balão-zão - para soltar quando chegasse a hora dos foguetes e dos fogos de artifício.
Chegado o momento:
fantástica longa metragem por ele já revisionada vezes sem conta nas vésperas, nos seus relatos de aventura aos colegas da escolinha.
Miguel segurando uma ponta do balão-zão, maior que ele; a mãe na outra ponta, dirigindo; o pai acendendo a bucha de cera, também controlando. E já a ansiedade, o brilho dos olhos, o frenesim que o emudecia, arrebatado, boca a secar, já seca, seca, coração picado, pum, pum, pum...
E: larga agora, Miguel! - gritou-lhe o pai
E já o balão subindo, lento, indeciso ainda, peito a estourar dentro de Miguel.
Mais uns metritos, balão fazendo cangochas para a esquerda e para a direita, confundido com os ventos...
Era uma vez, um pinheiro já derrubado...
Subiu o balão até se esbarrar num galho da árvore, consumindo-se ali mesmo; brutal desilusão, a de Miguel. Quase chorou, desgraçado; na verdade - só ele sabe - chorou mesmo, mas não deixou que ninguém o visse: quando se fosse a deitar, no sozinho do seu quarto choraria o resto, depois, a sério. Estava ciente.
Entretanto, fingiu uma tranquilidade...
Johnny-boy, também presente no extraordinário evento, estranhou-se no inexplicado abracinho de Miguel, que como se lhe dissesse:
-Ainda não percebes nada destes assuntos, mas olha que foi uma coisa muito triste, esta que aqui me aconteceu, pá!
Johnny-boy sorriu-lhe, como sempre - entendido nos afectos de Miguel, o primo que já lhe prometeu que irá ser seu irmão, quando crescer...
Uns momentos depois, para mim:
- Tio, olha aquele lá, que grande, que bonito...!
- É, lindo mesmo, tantas cores ... - respondi, esperando troco
-Tio, vamos fazer de conta que é o nosso!?
- Vamos! - animei
E lá continuamos:
Vai bater na lua?...Vai cair no mar...não...talvez no rio...vai para Lisboa?...ele pode chegar a Lisboa?...hi! hi!... que bonito...!
E lá desapareceu nas alturas, escuríssimas, o nosso balão...
Ainda ouvi Miguel murmurar, baixinho, só para si:
- Porcaria de S. João, de pinheiro...arre!

domingo, 5 de Julho de 2009

pozinhos de sulfamidas...

Enquanto se meninava em mim a vida, costumei-me no ir à caça; sozinho, ou com o meu amigo Mawaske. Ele, meu muito mais velho, levava sua espingardona de cartuchos, estrondosa a matar rolas e outros voadores mais rasteiros. Eu, por aí ainda já com dez anitos, levava a Diana 25, minha pressão de ar comprimido, só mesmo para arrancar cajús das suas altas árvores e também para apanhar passarinhos: rabos de junco, canários, pardais, tudo e inclusivamente as pudicas celestes, tão frágeis e assobiadoras. E azuladas no peito, que era o que mais me afinava a pontaria.
Um dia, chegados à aldeia mais próxima da nossa improvisada coutada, o chefe mandou-nos chamar. O assunto tinha que ver com uma sua neta, muito adoentada, ferimento numa perna já em avançado estado de infecção, necessitando de imediatos socorros, nos mínimos; para além de que todos os milongos e diaços tinham sido experimentados, e, zero resultados: as febres aumentavam a toda a hora, gangrena espreitando, ameaçante, mortífera...
Mawaske - homem prevenido que valia por ele próprio - correu a buscar a malinha dos primeiros socorros que sempre trazia no jeep:
Pega! - ordenou-me - faz-lhe o curativo que eu não tenho coragem.
Peguei na maleta e avancei pela cubata adentro - médico da AMI avant-la-lettre, feito eu - perante os espantos do avô-chefe da aldeia e do resto da miudagem de tanga. Acariciei a menina no rosto, disse-lhe que logo logo ia ficar muito boa e que não ia doer nada, tudo coisas que já não me tivessem feito outros um monte de vezes. Saquei da água oxigenada e lavei delicada e profusamente a ferida, retirando cuidadosamente todas as poeiras e restos de desiguarias que os kimbandas para lá tinham derramado, incluindo bosta de pacaça, igualzinha à de boi. E então a horrenda coisa, assim limpa, mostrou-me o verdadeiro estado daquele bocado de carne no quase podre, fedendo até ao meu limite suportável, porém comigo - minimédico da AMI - na obrigação de manter o semblante impassível, para não contagiar de horror a menina.
Entretanto o pouco assunto, Mawaske - todo esquisitinho e ainda enojado - cá fora da cubata falando de fantasiosos assuntos de caçadores com a meninada desvestida e deliciada com a sua canhoneira de canos muito grossos e enormes. Todos na tanga: cada um conforme a sua - Mawasque era homem de muitos filmes, também.
Avancei para a tintura de iodo, e também a abundei sobre a chaga; depois ainda mercúrio-cromo, igualmente em profusão; depois o pó de sulfamidas a cobrir a ferida toda, e a ligadura de gaze, o adesivo e um pedido para tomar uma aspirina, também por lá existente na caixa de Mawaske. A menina sorriu, primeira vez, e perguntou com uma vozinha assaz muito débil: você é kimbanda, ou anjo?
Dei-lhe um beijinho na mão escaldante e jurei-lhe melhorias, com um sorrisinho da idade do sorriso dela...
Depois da aspirina - qual sedativo, ininventado milagre - a menina adormeceu; e fomos então à caça, agora já acompanhados por dois muito voluntários batedores experientes da minha idade, apenas desvestidos de tanga e com zagaias e flechas com pontas de chapa de latas de leite Nido, da Nestlé, obviamente.
Quando voltamos, carregadíssimos de rolas e rabos-de-junco - e ainda mais alguns esquilos e sardões abatidos sem piedade pelos batedores infantis -, o chefe esperava-nos em poses e gestos convidativos para um como que travássemos mais conhecimentos, bebermos um cadingolo juntos, em agradecimentos, essas alegorias. Mawaske recusou, educadamente, alegando sofrimentos de doenças de fígado que o chefe com alguma muita dificuldade compreendeu e aceitou; eu, fiquei até hoje cheio de penas e lamentos por não ter provado o sabor do estranho agradecimento...
Quinze dias depois, num outro domingo, voltamos à caça por insistência minha. Mawaske não queria, mas eu ameacei que se não fosse nesse dia eu nunca mais iria. E aí Mawaske reconsiderou: perder o único parceiro das caçadas não era preço único, nem baixo. Nesse dia eu queria nada saber das rolas, das celestes e dos rabos-de-junco, mas da menina que se me fez preocupação e sonhos durante todo aquela quinzena. E lá fomos. Todos armados e minuciados com o stock farmacêutico reforçado.
À chegada, Mawaske reconsiderou voltar atrás, tamanha era a confusão na aldeia.
-Aconteceu alguma coisa, é melhor fugirmos já daqui antes que nos matem! - berrou acagaçado.
Na incerteza porém, mas também acagaçado, no meio daquela algazarra toda descortinei a menina da perna putrefacta, agora em pé, acenando-nos com um lenço, outrora branco, nas suas pequenitas mãos.
Espera! - berrei a Mawaske - é festa, não tem problema, avança, pá!, está ali a menina da perna a sorrir para mim!
E lá fomos de encontro à algazarra: à frente, sentado no seu banco de soba, lá estava o mais-velho avô com a menina da perna podre já sentada em seus joelhos, afrentado de todos os membros da aldeia; homens, mulheres e crianças, todos cantando e tocando suas marimbas e tambores com palavras incompreensíveis, porém em sonoridades muito inebriantes para mim. Mais tarde, soube que musicavam o acto com um canto onde me era louvado e reservado um lugar de anjo-kimbanda: a menina estava curada! E mais tinha pedido ao seu avô para a deixar casar comigo, livrando-me dos constrangimentos financeiros de alambamento!
Era esse casamento que me queriam propor, aos dez anos de idade, naquela algazarra da nossa chegada à aldeia e que tanto fez cagar de medo o meu amigo Mawaske.
E quase eu também.
Claro que não me comprometi em tal contrato, mas até hoje continuo sonhando com ela, fazendo-lhe os curativos sempre iguaisinhos: água oxigenada, tintura de iodo, mercúrio-cromo, pozinho de sulfamida, ligadura de gaze, beijinho na mão, sorriso nos olhos…, enquanto ela me sonha – adivinho eu - seu herói guerreiro, caçador, kimbanda, anjo e... marido, marido, marido.
Seu marido!
__________
milongos e diaços - remédios e feitiços (kimbundo)

sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Um teve-que-ser...

I
Era aquele, o dia. Seu primeiro baile.
Acordou bem cedinho, com as galinhas e o pato, porque urgiam-se os todos muitos preparativos: a saia mínima, a chinelinha caprichada a couro sobre borracha de pneu, os vernizes e as unhas de cores variadas, mãos e pés, as trancinhas, brilhantes azeviche, os cremes do corpo todo, todinho, os olhos sombreados a branco nas pálpebras, a blusa garrida de se reparar desde longe, as missangas nos colares, brincos, pulseiras, o baton vermelhaço dos lábios, jogando beijinhos para o espelho, sorrindo à-toa só para testar o efeito dos brancos dentes naquele encarnadão - experiências, treinamentos...
Cavou ainda um tempinho para o ensaio de uns toques de dança, última moda lá no bairro Operário, depois de colher da pitangueira umas vermelhas madurinhas, que cuidadosamente arrumou na bolsinha, para as necessidades dos frescos hálitos dos beijos, sussurros...
Pró caso, quem sabe?
Chegada a hora:
Sede do clube do bairro a abarrotar de gente bangosa, vapores aromáticos por ali se misturando, focos de luzes em exagerado derrame e já o estardalhaço da banda, afinando-se.
E vai que vai.
Chegou chegando, Elisa - a programada
- Kitata não pode entrar! - sentença de porteiro
- Está me julgando, seu besugo? - espantifou-se Elisa
- Ordens da Organização! - desculpou-se a autoridade besuga
- Vou chamar meu marido! - ameaçou Elisa, inventando marido
- Não precisa, moça: corno também não pode entrar! - outra vez o besugo, piadético
Derrotada - ninguém imaginando como ela por dentro se desconsistia -, voltou cabisbaixada para casa, a Elisa, esmagando de raiva as pitangas na bolsa, deschegadas da hora delas que foram - vulgar capricho da história de toda a preta pobre: pão caído no chão com a geleia virada para baixo, incomestível jamais...
II
Conheci aquela que foi a minha muito mulher amada, num domingo, lá na Missão de S. Paulo. Moça bonita de só se ver, ela, por dentro e por fora as muitas virtudes fugindo-lhe em voos directos do coração para os olhos, para as mãos, para o andar, para a voz, nos cânticos entoados juntos, mãos apertadas, Nosso Senhor, Jesus Cristo, vive!, nosso irmão e salvador... aleluia, aleluia!
Foi paixão mesmo, logo na primeira das horas. E até hoje que. A bem dizer.
Marcamos datas.
O único pior de tudo foi quando Elisa me contou aquela do seu primeiro baile que nunca. Falei nada, que não sou palavreiro, todavia registei, gravei a sangue e fogo cá por dentro no peito, arquitectando obra igual ou semelhante à que Deus faria, no meu próprio caso, ainda que Ele não seja vingativo como nós, desumanos, às-vezes.
Perguntei do próximo baile:
Março. Seria Março, próximo próximo.
Pedi para Elisa se arrojar nos decotes, nos vernizes e pinturas, nos cremes todos e batons, vermelhudos; saia mínima, quase nenhuma. Elisa assim tudo refez, essoutra vez, apenas se esquecendo de arrumar na bolsinha as pitangas para os hálitos dos beijos e sussuros, agora garantidos. Mas nem liguei, tanto que prefiro mesmo é gajaja!
E até que Deus foi grande, como sempre, colocando o mesmo besugo a repetente na função porteira, porém só mais aquela uma metade de vez...
Alembrando-me bem, agora, até julgo mesmo que o dito cujo nem chegou a pronunciar totalmente aquele 'Kitata não pode entrar'!, travou-se no Kitat..., tal potente sufoco lhe causou a peixeira cravada no peito. Caiu como porco costuma: de borco.
Elisa desmaiou-se toda, no comprido do chão; eu, João Candimba, fiz de contas, fingindo de testemunha quando chegaram ao fatídico local os primeiros curiosos.
Depois logo a polícia:
- Um qualquer preto chegou aqui a correr, extripalhou o besugo e fugiu correndo por ali, lá..., minha namorada até que desmaiou de susto, vejam só ela ali toda paraplégica...! - testemunhei.
Levaram-me preso: preto quando testemunha vira réu na hora.
Isso mesmo só soube mais tarde, mais uma vez fazendo de contas, já vítima e meia...
Graçádeus que a revolução chegou logo logo, presos todos fora das cadeias, naquela de vamos começar tudo de novo...
E começamos, de facto: vamos já no quinto filho amado, Elisa e eu, sem nunca mais falarmos do tal episódio. Qual episódio?
E assim foi que foi.
Por vezes, sabor de gajaja na boca, ainda peço para ela usar aquela saia mínima quase nenhuma, botar um baton vermelhudo nos lábios, usar suas missangas e mastigar umas poucas pitanguitas - como ela gosta, para os hálitos -, mas não é para irmos no baile de clube nenhum, não!...
Mas isso... são outros assuntos.
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kitata- prostituta (kimbundo)
besugos - parolos; designação dos portugueses da 'metrópole', em Luanda
peixeira- faca

quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Agorandando

Agora, agora eu só quero tomar rumo, na talqualidade paralelo à vida, coladinho, exacto, absoluto…
Quase morri na espera, sempre por falta de terceiros pensamentos, ao quadrado do tempo, por vezes, mas sempre inepto, saudosim - espécie velhusca. Mas agora, agorei de vez? – peitudo, sobrevoante, aranhiço, rés-vés Campos de Ourique, digo, Toledo, rasante a um mim próprio pleiteando um mais e melhor sentido de existir?
Será que agora, assim, sim ?

Deu-se porém no intercalado o caso do pinheiro a derrubar, a causas de queixumes vizinhos.
Pois derrubou-se, o dito cujo, em dolorosos golpes de serras eléctricas a espalhar morte pelo todo espaço como nunca houvera se visto: troncos gemendo, ninhos despassarados, mães aves gritando ovos, borrachinhos ainda sem brevet agoniando, de rastos, pinhas, pinhas, pinhas…
Chorava também o Boris, estupefacto, quadrúpede. Mínimo, lá no matagal dos gemidos verdes...
Estardalhou-se a vizinhança – a mesma já maldita – com tal vegetalificina.
Carecia-se de intervenção de quem mais em autoridades – bradaram aos céus.
Mas nada! Ninguém!
Irremédio: morreu o meu pinheiro; em pé, como cavalo…
Sim?, mas então o dito chegou mesmo a existir?
Como lição, agora, eu só quero tomar rumo, consistido em forte e grossa casca por fora, delicado no pordentro, anéis concêntricos de tronco de pinheiro espalmados no rosto, mostrando a idade, as algumas sabedorias…
E todos os cansaços.
Sem sequer nem saudade nenhuma...

domingo, 28 de Junho de 2009

Probremas...

Falar e escrever, a gente fala e escreve, tem dificuldade não. A probrema - conjunto de dois problemas brabos - é organizar uma história, raridade nascida do nada ou do quase, parida da cabeça chocha e quadrada, folha em branco de ressaca, caneta sem bola nem tinta, intermezzos e finalmentes já todos sabidos e decorados. Salteados também.
Este, o um;
o outro, é ainda pior: o sujeito dita a epopeia com todos os heróis e enredos para a secretária; acontece que a secretária nesse dia não foi trabalhar, estava doente. A bem dizer, tudo se passava enquanto o sujeito dormia, e secretária, nem sequer nunca existiu. Bem: tirando Borges e Saramago, nem muitos se podem gabar de tal gabarito, secretária sempre pronta, acordada, de gravador em punho enquanto os seus dormires se divagavam.
Uma vez tentei fazer a experiência com a minha companheira: na manhã seguinte acordei com um valente estaladão na orelha. Tinha-lhe narrado, tintim por tintim, a minha última e vil traição. Ficou-me o exemplo a não seguir. Hoje só adormeço depois de ela apitar.
Porque falar, falar a gente fala, mesmo dormindo; tem probrema não!
O estar-calado não é também texto?
O verdadeiro e absoluto problema é a genialidade - coisa difícil de se ver, pior ainda que tosse de vaca - que raramente coexiste comigo, quando acordado...
Preciso - urgentemente! - de uma secretária para as noites de genialidade adormecida: acordado, sou uma desgraça imprestável!

quinta-feira, 25 de Junho de 2009

baiacús

O velho João de Tiba fluía manso em suas águas profundas, por baixo da ponte de pedra, lá para as bandas de Cabrália; aí sentados, pescando, Laurinho Turco, Geninho Cabral, Arnaldo Sakamoto, Johnny Lambidi, e eu.
E o assunto, decorrida a primeira hora de fracasso piscatório, era só baiacús, apesar de todas as fantasistas propagandas sobre robalos de metro e meio mordendo o isco a toda a hora...
Tem que ficar esperto, portuga! – me avisaram os profissionais da pesca ao robalo - não puxa logo, deixa o peixe engolir...!
Até que…
Era já o quinto ou sexto baiacú no meu anzol, este gordinho, inchado, quase falando; irritado, rebentei-lhe a cabeça à pedrada e devolvi-o, assim todo esborrachado, para o mesmo lugar de onde tinha sido pescado, avisando em voz alta:
Vá lá agora, fidasputas, vejam só o que vos acontece se morderem meu camarão…!
E assim se acabou a saga dos baiacús: desapareceram da zona e ninguém mais pescou um.
A gozação com a minha sentença aos baiacús durou todo o dia, mas valeu a pena: Arnaldo Sakamoto pode abastecer para uma semana o seu Sushi-bar, tal foi a robalada pescada.
No final, depois de tanta risada na minha cara, apresentei meus argumentos:
Perante aquela miséria estampada na cabeça de um dos seus, os outros baiacús só tinham uma de duas hipóteses: ou se atemorizavam e fugiam dali, ou então - atribuindo-lhes algum sentimento civilizado – ausentar-se-iam para realizarem o funeral do seu companheiro…
Optaram por fugir?
Foram ao funeral?
Ficamos todos sem saber.
Até hoje !
Pois, assim tudo se passou, mesmo.

quarta-feira, 17 de Junho de 2009

O verbo sonhar (2)

- Fala, Chico: que querias ser se fosses branco?

Chico nem um segundo demorou na resposta, sonho proibido sonhado fazia tempo, todos os dias, a bem dizer:

- se eu fosse branco ficava só assim aqui sentado penteando meu cabelo, lisinho, lourinho, de preferência, e até que de comer e dormir nunca mais me lembraria, só me penteando, penteando... !

- Só isso? - arrisquei.

- Tudo isso, Jonas ! - sorriu, triste, passando a mão pela carapinha e já viajando na possibilidade de tal milagre.

- Isso é fácil, pá! - compra uma peruca loura e já está.

- Hi!, mas peruca loura com pele assim tão pretona? - admirou-se

- E qual seria a verruga? - curiosei-me.

- Verruga? - Isso aí seria um verrugão, ofensa pública ao público preto, minha mãe, meu pai, vexame da raça em casa própria ...!

- Ah, então tu querias era ter o cabelo liso e louro mas continuar com a pele preta?

- Menos ou menos; eu queria ser branco mas só se branco não fosse raça manienta, mas apenas só concreto substantivo significando cabelo lisinho, lourinho, brinquedo na cabeça logo na nascença, assim talqual como aconteceu contigo, apesar de não seres nem preto, nem branco e nem mulato. Mais nada.

- Então eu sou o quê? - espantalhei-me.

-Não, quero dizer, tu, Jonas, és só o meu amigo Jonas, mais nada...

Mais nada



terça-feira, 16 de Junho de 2009

Cantemos...que o mar não está para peixe!


Azulejo de uma quelha de Córdoba
Adiantou levar as canas?
Adiantou nada! A casa que vendia os 'cebos' tinha falido recentemente e dedicava-se agora a uma estranha actividade chamada 'Se Alquila'. De forma que me restaram as amostras - aqueles aparatosinhos usados para mentir aos peixes que são comida, mas não: humanas covardias!
Impesquei, pronto. Na verdade, pescar é uma actividade dupla: pescar e não pescar tudo é pesca, e ademais, o Mediterrâneo - tão carregado de bosta que ele ali já chega, pareceu-me não estar para peixe, tal é a sobrecarga que ali também recebe.
... E como turista caga, my god! E quanto mais pobre, mais caga. É disso que se esquecem os hoteleiros da zona quando vendem pacotes turísticos - com pensão completa - a preços de chuva. E pobre não resiste a um bufet repleto de comidas coloridas e bem arranjadinhas, mesmo com sabor a nada: lambuza-se até que se lhe estourem as tripas.
As minhas estouraram antes. Felizmente.
Ah!...como é bom voltar a casa depois de uma tempestade de merda!

Exactamente, o fim

Quem que nunca ama, sempre descuida. Até que um dia, após tanto descuidar, a vida começa a soprar os primeiros bafos para cima dos seus dias: os amanheceres chegando cinzentos e as noites a porem-se breu de repente, galgando as tardes, anúncio de ruína, primeiros escombros soltando-se, sirenes ambulantes, gritos, suores frios, pesadelos, disparos, escuro, solidão: o já velho e conhecido mau-hálito da vida!
E tudo isto a conta-gotas...
Depois já o naufrágio, merecido e exacto, como qualquer final ao qual se lhe preparou, ad recto e com afinco, um princípio e uma lógica.
Recuar, em correcções e arrependimentos, já é tarde; avançar, em reenganos, seria patético.
- E disfarçar de azul o cinzento, descarregando o cinza ? - aventa ainda o descuidado, pensando em aguarelas.
Mais...la solitude!
Pois...

sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Desavozando...

Dá-se o caso de um intervalar no avozar: vou de 'vacances'.
Só espero é que a maldição de pobre se cumpra: quando vai de férias para a praia - a banhos, como antigamente se dizia - o verão vira inverno, chuviscaralhento. Coisa gostosíssima aliás, para um preto como eu já repleto de sol por todos os lados...
A ver vamos. Para os sins e para os nãos levo as canas de pescar comigo: prevenidérrimo.
Até breve, copanhanderos.
Estamos juntos, pretalhada!

O verbo sonhar (1)

A meu mui rogado pedido, para a caneta repetiu faladura o infeliz Edinaldo:

... A vida da gente é assim: sempre arrecuando, arrecuando, com medo de mudar. De repente a morte vem e muda-nos tudo. Ou nada, quando isso é o tudo que encontra. Pró caso.
Na nossa casa, nem as chagas supuravam; apareciam logo com crosta para a gente se enterter a escarafunchar - em unhazes gostinhos - esperando o dia seguinte chegar, com tudo de novo encrostado; ele também, para não avariar. Pobreza não é o contrário de riqueza; é pior: insubstantivo singular. Nela, a vida torna-se nunca, por vezes porém passando arredia algures numa fé, num onde longínquo, nuns outros, num deusdará, quem sabe? - só para facilitar o improvável sonhar, em sarrabiscos de lápis, geométricos, lá no escuro do casebre.
-E sonhar é verbo? - ousei.
Nem isso. Tremendo constante desassossego, é o que é!
Água da boca não faz o pão. Só por casualidade do acaso, e olhe lá!
E de vez em vez, a malvada caveirosa ia levando uns de nós, só por assassino costume, com doenças que em rico não pegam, brigas em que rico não entra, facalhudas.
Assim íamos perdendo toda a família: pais, irmãos, filhos, tudo...
Num ápice: á ... pi ... e já eram: fieis defuntos...
Interrompendo, Sô Jonas, paga uma cachacinha para mim molhar as goelas, vai...

-Fechado! - concordei.

quinta-feira, 4 de Junho de 2009

dor de corno, adolescente....

Nos tempos de que já nem me lembro aconteciam coisas estranhas, agora revisitadas.
E tintinportintim quase consegui desremendar tudo, nos vertentes casos:
Um deles, pacto sanguíneo, obrigava um corte de lâmina na palma da mão a todos os novos avilos, ou avijotas, amigos-irmãos-a-ser, que depois se ajuntava num aperto forte de mãos sangrentas, em misturâncias superinsignificantes de compromissos eternos.
Tínhamos, por aí, cinco, seis anitos de idade: uns parcos dois mil dias de existência, porém já repletos de incomplexos de honra, pueril incompetência da intotalidade de nosso ser;
Outro, já mais tarde acontecido - primeiros sinais de barba rebentando por entre vexantes borbulhas - melhor é nem dele falar pelo tanto que ainda dói:
namorada de amigo não podia ser cobiçável nunca, em tempo algum, mesmo que apesar de!
E foi no entretanto desse apesar-de, que tudo se não deveria ter passado, que tudo, afinal, acabou por acontecer:
minha namorada se enamorou de meu sanguíneo avijota; e meu sanguíneo avijota retribuiu-se em enamoramentos por minha namorada, violando todas as leis acordadas nos imberbes juramentos de fidelidade, a sangue selados!
Podre, e ainda mais que podre, recorri a conselhos dos mais velhos, consultei as incontestáveis verdades dos búzios e das pedrinhas: mas nada de remédio para tal vicissitude!
Casaram-se: todos.
Descasei-me eu, sozinho. E ainda hoje que até nem.
Só com um amargume me devorando, devagarinho, devagarinho...

terça-feira, 2 de Junho de 2009

mais uma estorinha de amor

Casaram. Roliça ela, olímpico ele.
Queimou-os o tempo, desfragmentando-os em muitos acrescentos; um deles, dois filhos desleixados pelos incuidos - outros, imensas gorduras povoando-lhes os corpos de alto a baixo, em grotesco capricho.
E talvez por falta de mais alma para enterter o tempo em outros cuidados, pataqueiraram-se.
Tudo desconsoantemente deveriam proceder neste tempo de desmiséria de que, afinal, até beneficiavam.
Foi nesse preciso então que o desamor se impôs entediando as horas todas de todos os dias, quotidiariamente.
Carpinteirava ele, serviçava limpezas de casas alheias ela, todos os dias, quase o dia todo. O tempo sobrante - quando raro o havia - já que até nem era tempo nenhum: invivível, desnecessário, atempo.
- Colher de pau erra a panela?
Segundo os relatos da vizinhança - parca em amizades com a vítima, devo dizer - tudo se passou na final da Taça, frente ao plasma recentemente adquirido para comemoração das tantas adivinháveis conquistas nortenhas...
Em má hora se atravessou Felisberta, a ex-roliça, entre o écran e os olhos do carpinteiro, o ex-olímpico, analfabruto: voou sozinha, zunindo pelo ar, uma garrafa quase cheia de Super-Bock em direcção exacta com a cabeça da infeliz, cuja caiu redonda para sempre nunca mais se alevantar.
Quando chegou a ambulância, precisamente na altura do primeiro e único golo da vitória nortenha, garantem alguns vizinhos que ainda se ouviram, em todo o bairro, os gritos urrantes da euforia do carpinteiro.

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Espantalho

Eureka!
Descobri o nó-górdio das todas questões que me têm assolado a paciência, avassalando-a em impaciências:
A vida - afinal - é um conjunto de buracos, quase sempre remendáveis. Porém, um problema subsiste, triste:
Panos para a remendar, sempre os arranjamos em qualquer altura; mas como saber a cor dos buracos?
Buraco azul, remendo azul; buraco negro, remendo negro...
Pois é...!

sábado, 30 de Maio de 2009

Plastificando, o plástico

Queria tanto falar das falhas das minhas falas, do que sempre a timidez amordaçou quando o coração queria explodir...!
(Está bem, já sei, esgotou-se-me o tempo para isso, como me recorda o relógio...)
Mas gostava de as falar agora, ou em qualquer outra especial altura, ou nunca, talvez num dia simples, como hoje: só para desabafar, desopilar, desodorizar essas lembranças, catar essa irritante piolhagem, lavar-me em lixívia, perdoado - enfim perdoado e bento, coitadito, coitadinho...
Foram tantas as situações perdidas, tantos e violentos os vermelhíssimos rubores me deixando sem jeito, me engasgando as bombásticas falas que deveria ter feito explodir, mas engoli...
- Espera aí, Suzana!, dá-me um tempo...!
Mas Suzana não deu.
- Espera um pouco, Marinela...!
Nem por isso, a Marinela...
- Espera aí, Vida... - espera aí que eu já cresço e já me passa esta merda de rubor...!
Mas a vida espera nada por ninguém, nem muito menos fazendo de cirurgião plástico com ela, dissecando-lhe o tempo passado, colando-lhe novas células, siliconando-a ...
Não existe solução para o tempo perdido.
Resta-me assim, agora, este resto de tudo, estes arrabaldes de todos os lugares onde não estive mas deveria ter estado - caso eu fosse mais audaz, mais capaz....
-Suzanaaa!
-Marinelaaa!
-Vidaaa....!
Respondeu-me o eco, ao longe, para lá de todas aquelas montanhas do tempo, com apelos iguais...

segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Um beijinho para os candidatos ao parlamento euro-peu...

Eu, catalogado nas todas estatísticas como europeu, venho aqui afirmar que de euro não tenho nada, e de peu muito menos! 
Sou africano.
Sou de Angola.
Sou de Ponte de Lima.
Sou da Bahia.
Sou do Porto.
Sou do caralho.
Mas não sou euro, nem tão pouco peu!
Peu...peu é a peuta que vos pareu...!
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sexta-feira, 15 de Maio de 2009

Áfricaaa!


Adão Xivuko esculpia a sua vida toda em imatérias de sonho e substâncias de pau.
Um dia resolveu arranjar mulher para com ele viver, fazer procriação, encher aquela cubata de barulhos de meninos. Sons de mais gentes.
Silenciosa gente.
E lá se meteu por caminhos do mato, catana na mão para as delicadas e criteriosas escolhas.
Era já noite quando voltou com aquela que seria a sua sonhada mulher, aos ombros em projecto.
Esgotado, quase desfalecido se jorrou todo na esteira ao relento do quintal com as estrelas, e já a ressonhando, tressonhando, formão e estilete em mágicos movimentos de prestidigitador a criando derramante de belezas tantas…
Dia seguinte iniciou a árdua labuta.
Formão e martelo, lixas e mais lixas…
Estilete afiadíssimo para os detalhes de beleza, e para os sentimentos exprimíveis no rosto também; cinzel, para os maiúsculos músculos delicados...e o sorriso:
As imperiosas sincronias todas da sua muito sonhada beldade …
E lixas, tantas lixas para a ir alisando sempre até atingir a macieza impossível, algodão-seda...
Começou-lhe pelo rosto:
Os lábios fê-los carnudos, para os beijos, ajustáveis aos seus também carnudos lábios, agora cada hora já mais sedentos…
Ao sorriso, talhou-o eterno, desenhado-o não muito aberto, só no início do sorriso mesmo, levezito como a quem a vida agrada…
Os olhos rasgou-os em ternuras, espelhando só uma idade madura e alguma malícia, não mais não menos: um pormenor para o bom ambiente dos dias, outro, para os amores calores das noites, na sua esteira…
O nariz contornou-o delicado, quase mestiço, com a ajuda das lixas, lisinho, lisito..
Até que chegou ao pescoço: alongou-o então só mais um pouco do que seria de esperar, jeitinho Modigliani, para lhe fazer sobressair alguma altivez: afinal, para todos os efeitos, ela seria uma rainha. Por isso aqui tinha de não perder o equilíbrio, tanta era já a emoção de a imaginar segurada por ali, puxada de levinho para a sua boca, e dali deixar escorregarem-se-lhe as mãos no verniz até aos seios - que os haveria de talhar grandes, grandes, grandes para o bom deleite das mãos e para garantia de bom alimento de filhos futuros.
E vieram as mãos…quase ávidas, expressivas, receptivas…
E depois chegaram as coxas…hi!
As pernas, indescritíveis…sumaúmas.
Caía o escuro quando finalizava os pés…
-Aiué!... os pés!
Adão envolveu a obra em grandes panos coloridos, e deixou-se dormir, esquecido de comer…
Nessa noite a fome sonhou-lhe ainda umas sandálias, incrustradas de diamantes, espirrando estrelitas num eventual caminhar, lindas, lindas de se morrer contemplando-as só...

A este relato segue-se o finalizar da sandália, as noites de calores amores, as muitas delícias das mãos, os diários sorrisos levezitos, os olhares trocados em malícias ternuras deleites e, por fim, os dois filhos.
Amados filhos.
É assim que a história deveria gravar a génese daquela tribo silenciosa, primeiros habitantes da minha África toda...

quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Jazzing...

Uma das formas de se preencher espaços vazios é deixá-los vazios,
ocupá-los com nada,
com um pressuposto apenas,
uma desintenção,
sem mais nada ou com um milagre, como o fazem os músicos de jazz, os dengosos caminhares vaidosos dos angolanos e dos basquetebolistas da NBA, o meio sorriso de uma adolescente preta sob sóis tropicais e também, por vezes, como o silêncio o faz e os gementes barulhos das selvas o imitam, à noite...!
...
Mas afinal, uma das formas de existirmos é não existirmos?
É deixarmos que algo se nos subsista?
Pressupor sempre um ec-sistir que vai resolver tudo por nós ?
Ah!, como a covardia tem formas delicadas e tristes de se dizer...!

segunda-feira, 11 de Maio de 2009

O mestre Boris

Uma das características dos animais sobreviventes - os mais fortes - é a sua capacidade de adaptação aos diversos ambientais meios a que são ou foram sujeitos, quer por obra e desgraça ou teimosia humana, quer por caprichos climatéricos do planeta. Esses sobreviventes, não só resitiram a todas as intempéries como ainda se aperfeiçoaram, ganharam mais uma escama aqui, uma pele mais forte acolá; um novo corno nasceu-lhes na cabeça, uma nova dentição se lhes redistribuiu na boca, enfim, apetrecharam-se defensivamente perante a adversidade, realidade sempre presente em seus horizontes. 
Para iguais desígnios os humanos fizeram plásticas, recolocaram dentadura completa, botaram uns cremes, uns talcos, fizeram fitness, musculação, compraram cobertores e sobretudos, construiram casas mais sólidas, contrataram vigilâncias, inventaram desfibrilhadores, batedores cardíacos de plástico, carros de vidros à prova de bala, instituiram universidades onde só havia a aldeia para dar, acasalaram-se escravos com superpotências para que ninguém lhes denunciasse as impotências...
(Ah!, mas dos humanos nem quero falar...)
Saltando directamente dos bichos resistentes para mim próprio - que pelos vistos tenho tanto de bicho desistente como de humano vaidoso - ainda não percebi como, decorridas quase quatro décadas e a pensar-me minimamente inteligente, não logrei atingir, em Portugal, a serenidade que o meu cão conseguiu, já que ele - ou o seu ADN - é oriundo das estepes russas.
Digamos que, quando meu cão chegou a minha casa - vindo da Rússia - não teve a mesma recepção que eu tive quando desembarquei em Lisboa, vindo de África.
Hipótese sempre provável, mas não desculpabilizadora da minha impotência para resistir ao meio adverso.
Esta lengalenga toda só para vos dizer que o Futebol Clube do Porto foi, mais uma vez, quarta vez seguida, campeão português de futebol, e eu - cidadãozinho do Porto - nem por isso fiquei contente!
E pior..., nem triste!
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ps - vou-me aconselhar com o Boris....
URGENTEMENTE!
     

domingo, 10 de Maio de 2009

Bad-boys...

Segundo o nosso impoluto primeiro ministro, as manifestações daqueles alguns bad-boys de Setúbal são, cito: um ataque à democracia!
E daí? - pergunto
O que é ou quem é a democracia para não poder ser atacada? Um dogma, um mito, uma deusa, uma autoridade moral ...?
Ainda ao menos se fosse algo que para se aceder ao benefício fosse preciso ser-se inteligente. Mas não, bem pelo contrário: basta-nos pensar rasteirinho, baixarmos a crina à arrogância do chefe e pronto!, já estamos democratizados, imaculados por sacrossanta benzedura da camaradagem moralmente analfa - beta e bruta.
Quem se julga a criatura para falar em nome da democracia? Logo ele, carregando às costas com tantas insinuações de crimes contra a democracia ?
Que se dane lá a democracia e com ela todas as outras cracias!
Este tempo - em que um bando de cretinos decidiu aproveitar-se, à escala mundial, de um conceito que já não significa quase nada de positivo - está a tornar-se invivível, insuportável a quem ainda resta um pingo de dignidade.
Portugal, Brasil, Angola, Itália, França, Espanha... todos países aparentemente civilizados, mas no fundo, todos governados por saudosos seguidores de Fidel, de Salazar, de Idi Amin, de Mobutu, Stalin, Franco..., apesar da falta de coragem para o assumirem: caldinho de esquerdistas de Maio com a mocidade alemã dos anos trinta, eis o que realmente tudo isto é!
Por isso é que quando vejo um qualquer grupo de bad-boys fazerem alguma coisinha contra o sistema, umas garrafitas de super-bock com gasolina que sejam, é para mim uma alegria...
Já o foi aqui há tempos em Paris e Atenas, agora em Setúbal: a coisa está a começar a animar...
Come on, bad-boys!

quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Farpas à-toa...

A inúmeras descendências de bastardos dessa Europa toda chamamos monarquia - apesar de que, quando lhes sacudimos a árvore genealógica caiam estribeiros, ferreiros, criados de quartos e outros metecos, às centenas, como azeitonas...;
A alguns bandos de corsários, arregimentados nos cárceres por uma élite sangue-azul que curtia yachting, chamamos descobridores: marinheiros que deram novos mundos ao mundo seguindo os voos migratórios de certas aves, ou quando não, certamente também fugindo à fome e à peste;
Às corjas de malfeitores e chicos-espertos que ficaram em terra - a beneficiar dos míseros suores da populaça e do produto dos saques piratas - chamamos políticos;
À nossa ancestral tendência para os remendos, chamamos desenrascanço...!
E eis que desembarcamos em Bruxelas: pés quase descalços, remendos nas calças, passado negreiro e colaboracionista, sorriso alarve nas beiças e já babando vaidades saloias made in Lisbon, a mãe do Tratado.
Mas sempre a desenrascar: vendilhões do templo umas vezes, outras, lambedores de manápulas fedendo a verbas, a fundos, a dinheiro, dinheiro, dinheiro...
Em tempos já houvera um Brasil, que foi o maná para a monarquia; depois um Macau, que o foi outro para o PS. Agora é Bruxelas a acenar aos abutres do costume com salários milionários naquele pseudo parlamento, verdadeiro alfobre de europarasitas que hão de levar esta velharia continental à falência, ou a mais outra guerra...
E nós a levantarmo-nos da cama para ir votar nestes coveiros: catrefa de gajos que deviam estar a cavar os montes lá das traseiras ou as planícies do Alentejo, ou ainda a dizer missas nas longínquas paróquias do país profundo, e que aparecem agora a falar-nos de um futuro verdadeiramente europeu, logo a nós que somos terceiromundistas por vocação !
Que futuro, seus imbecis?
Que futuro quereis para nós depois de já sabermos do tanto e vergonhoso passado que nos deixaram?
Coitados dos portugueses: tão pequeninos e tão burrinhos!

segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Metafísica...sei lá!

Mas porque será que a vida tem sempre um mas, um pois, um claro!, um não-sei-que-te-diga, um talvez, um talnunca…?

Como foi possível chegar-se a tal ponto de desenvolvimento humano carecendo de uma ciência que nos ensine a suportar a vida ou, pelo menos, nos indique a melhor forma de a levar, a melhor maneira de a conduzir por atalhos e autovias, pisos lisos, pedregosos caminhos ?

Como foi possível chegar-se a hoje em tal ignorância?

Foi fácil, facilinho!- diz o joker:

Metafísica, meus filhos!

A vida…é a verdadeira metafísica: um cego de olhos vendados num quarto escuro tentando apanhar um gato preto, que não está lá!

Mas, pois, claro!, não sei que te diga, talvez…

Nunca?

Morrer sim, mas devagar...

Vejam esta merda em écran total, headphones bem ajustados no máximo e digam-me lá se não vos apetece morrer aqui mesmo e agora, nesta proximazinha curva, contra um murinho, um murão, de encontro a uma parede qualquer, um paredão, uma sede de um partido político...
Contra um não sei que puta de metafísico obstáculo...

terça-feira, 28 de Abril de 2009

bombinha de carnaval...

Agora que o mundo está em crise, estou - incondicionalmente - ao lado dos banqueiros, dos sevandijas, dos trambiqueiros, dos pilantras, dos corruptos, dos traficantes de carne humana para canhão, com os negreiros do nosso português passado e, principalmente, ao lado de toda a gente rica que treina natação matinal em piscinas de lágrimas e suores operários...
Agora que o mundo está em crise profunda, não disporei certamente de uma outra oportunidade histórica para ver o meu conceito de Socialismo realizado: deixa-se morrer à míngua a ralé pobreza toda para depois se erigir, ab initio, uma sociedade ideal só com ricos, melhor que a Noruega, a Suécia e a Dinamarca juntas.
Só que - ora bolas! - como hei-de fazer para obrigar os ricos, os trambiqueiros, os sevandijas e as outras cambadas todas a trabalhar, a produzir riqueza, a depositar as suas poupanças nos nossos bancos e a verter suor e lágrimas para as nossas piscinas ?
(Rico lacrimeja, transpira...?)
Nada que não possa ser resolvido! - diz o joker lá das escuras profundezas do Hades:
-Importam-se escravos do Magreb, da Índia, de algum leste europeu ou de qualquer outra pocilga, e vira tudo ao mesmo, por mais um milénio!
Pois então...!
___________________________________
ps: -Em tempos apareceu por aí um esperto, Brecht, de seu nome, que veio com uma amostrinha de poema dizer que...
Os tiranos
fizeram planos
para mil anos!
Claro que o tal Brecht era um idiota...

domingo, 26 de Abril de 2009

um rastilho...

Eu estou com a pobreza, sempre, mas não com aquela que arruma o chaço quando a gasolina aumenta, não com aquela que se desprefere dos Euromarché para os Dia, envergonhada e subrepticiamente para que a vizinhança não dê conta: aquela mesma pobreza que recomeça a enfardar salsichas ao primeiro desemprego, a cortar no leite dos filhos para aguentar o aumento do preço da frequência dos estádios de bola, a compreender as inflações cabeleireiras e manicures, as ameaças patronais…
Não!, eu estou com aquela pobreza que, sentindo a humilhação de um destino que não escolheu, opta por ser puta, ser traficante, ser bandido, bandido dos bandidos, chefe dos bandidos; aquela pobreza bombista, pobreza Etarra sem saber o que é a ETA, pobreza terrorista ad-hoc e à toa, miséria sem política nem ideologia de livro, miséria-já-cansaço das histórias de insucessos dos todos ascendentes lá de casa…
Eu estou com aquela pobreza que, perspectivando-se eternamente pobre e fodida por vários maus destinos decide arrastar mais alguns em seu naufrágio, vingando-se da vida que os seleccionou assim e não de outra maneira, como o fez com milhões de seres viventes em mundos civilizados…
Eu estou com a pobreza que se indigna e berra e cospe sangue na cal das paredes, nas pedras das calçadas e nas páginas dos noticiários;
Estou com a pobreza que me tira o sono de segurança pelo meu próprio futuro, minha própria segurança…
Estou com a pobreza que não é pobreza, mas indignação: pobreza-direito de viver em paz, pobreza-direito de declarar guerra por razões de sobrevivência…
Pobreza-direito de fazer explodir o mundo…
Estou com a pobreza que cospe para o ar e contra o vento sabendo que se pode foder em seguida com o próprio cuspo…
Estou, em suma, ao lado de toda a gente pobre que decide que riqueza maior que liberdade não pode existir…
A qualquer preço!

sábado, 25 de Abril de 2009

25 a abrir, para longe!


Façamos de conta que existem tantas mulheres casadas por amor como homens libertados por revoluções de cravos…
Façamos de conta que a essas mulheres calharam idiotas maridos, desinteressantes amantes, desprezíveis criaturas…
Façamos de contas que a esses homens calharam governantes Sócrates, estigmas Aníbal, preconceitos Lula, complexos Hugo Chavez…
Façamos de contas que a nossa única vida deveria ser a sério.
E então...?
Ah!, não me fodam com comemorações, por favor!

sexta-feira, 24 de Abril de 2009

destino canoa


Como qualquer árvore que se preza em seus todos verdes, suas todas flores, seus todos frutos, também eu vivo semi-sepultado: raízes enterradas lá nas frias pronfundezas de uma desconhecida terra-mãe, olhos arregalados para a claridade do sol, para a luz da lua, à chuva e ao vento, clorofilodependente, fotosintésico, porém apátrida…
Como qualquer árvore que se preza, também eu acolho e alimento morcegos para a protecção de minhas noites, suscito a canzaria para me mijar a base e os pés, escondo os que se desenfardam de urina e de merda, às escondidas dos demais mas para nojo do planeta.
Como qualquer árvore que se preza, sei-me lenha para imensas fogueiras, sombra para vis traições, páginas para reles palavrões ou cartas rogatórias das vigentes injustiças, celulose fedorenta que haverá de gerar – aos milhões - papelões, cenários, figurões…
Como a qualquer árvore, também a mim arrancaram pela raiz, gravaram em minha casca corações e cúpidos, blasfémias e tatuagens para que eu não esquecesse minha condição imóvel até virar lenha, chama acolhedora do quentinho de um qualquer lar de idiotas…
Como a qualquer árvore, trocaram-me o nome, plantaram-me no local errado e à hora incerta, e agora amaldiçoam-me o fruto, negam-me a sombra e até, pasmo! - da placidez que me sobrou em sorte depois de me conformar com este destino vegetal - querem fazer de mim canoa para transporte de frustrações e outras existenciais azelhices, de uma margem para a outra, durante toda a vida…
Ah!, como eu já vislumbro tantos naufrágios, tantos náufragos a esbracejarem em direcção ao meu tronco, agora oco, insensível...!

quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Bombardear a vida, com napalm

É este não-querer que me rouba as noites e as esconde num outro obscuro lugar, cuja geografia ignoro;
É esta nauseausência de tudo que me repleta o peito de coisa nenhuma, sufocando-o…
São os dias a voar, assassinando à passagem os poucos sobrantes outros com bojardas de napalm, e eu a correr atrás deles desvairado como se ainda me fosse possível alguma replantação nesse todo gasto e já estéril solo dos dias passados, ou pelo menos me fosse possível resgatar alguns, para os viver mais tarde, em melhor oportunidade, em jeito de uma retroactiva compensação de esforços, por exemplo…
Esforços? - Que esforços alguma vez fiz eu, com alguma coisa?
Não pode ser possível que a verdade do viver se resuma a tão pouco exercício: ver os dias a passar como incólumes criminosos e as noites a correr diluídas em sons de madrugadas inocentes sem que nada aconteça, é má onda, com toda a certeza.
Esta fantochada toda mais se asssemelha a uma alienação do que a um digno viver humano.
Mas quem quer viver para outra coisa senão para alcançar esta ataraxia de se ficar assim - semi-alienado - apreciando os bombardeamentos de napalm sobre os dias que passam?
Ah!, não pode ser possível que a verdade do viver se resuma a tanto desperdício!
O Homem – disse-o alguém – é um milagre que não valeu a pena!
Hoje, eu sou a própria encarnação desse não-ter-valido-a-pena, nos termos do milagre que num certo dia de Inverno fui!
Quem a vida vive devagar, veloz lhe anoitecem os dias...
E como tenho vivido devagar…!
E como galopam as noites, freios nos dentes, cheirinho a napalm na escuridão...

quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Pesadelos...

Hoje decidi sonhar um pesadelo com os olhos bem abertos…
E que me desculpem os bem-aventurados, os também-filhos-de-deus e todos os outros esquecidos deste e de todos os mundos futuros: em suma, os optimistas.
E a complexidade no dito pesadelo desenvolvia-se comigo em actor principal e no papel de filho da puta dos tempos, mais ou menos assim:
Eu chegara a um patamar económico em que, graças às mais-valias problematizadas por Marx, arrecadei fortuna suficiente para que eu e minha toda descendência pudéssemos viver em total independência, e em qualquer parte do mundo;
Então, aos meus empregados improdutivos mas reinvindicativos, mandei-os todos para o desemprego, ao abrigo das leis;
Aos produtivos, e menos reinvidicativos, exigi-lhes – conhecedor da lógica dos mercados - mais produtividade na hora de saber que nem com produtividade demasiada os produtos por eles produzidos encontrariam quaisquer compradores.
Enfim, armei-lhes a cilada do costume para eles acabarem dizendo: coitado do nosso patrão, que até é um gajo porreiro!
E a fase que se segue já nos mostra técnicos especialistas disto e daquilo batendo às portas para arranjarem um lugar de porteiro, de jardineiro ou de coisa nenhuma com cheiro de suor…
E eu sempre autosuficientando, com o dinheiro agasalhado num banco suíço ou em qualquer paraíso fiscal…
E eles sempre mendigando, mendigando, baixando o preço às suas qualificações, já quase totalmente desqualificados…
Noutra janela, já o Estado - entidade dependente destes coitados - cada vez mais enfraquecido, enfraquecendo por carência de contribuintes e demasia de subsidiados…
Até que, inevitavelmente, se atingiu o caos, o beco sem saída a exigir os cortes epistemológicos do costume.
E logo as ideologias, travestindo liberdades…
E logo os circos políticos, exibindo os ursos mais adestrados, mas também esfaimados.
E eu, nada! Autosuficiente e cínico, dinheiro agasalhado na Suíça, em paraísos fiscais e no tempo, sim no tempo, naquele que a História já me garantiu que disponho até os outros se matarem uns aos outros em lutas de fome, em causas de ideologia, em espasmos de inocência ou de materiais invejas…
E assim foi prosseguindo o pesadelo, meu neto já no meio do barulho, meus filhos já de armas na mão e meus pais irrompendo da tumba em indignados berros…
Despertei em sobressalto:
O livro de Bucky Fuller jazia ao lado, na mesinha de cabeceira…
... E tudo isto a uma velocidade de cem mil kilómetros por hora!
-Por favor, pilotos do planeta Terra, apeai-me, que eu fico já aqui!

segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Receita de Kalulu de peixe...

O kalulu da avó Ximinha...
Como se costumava ao primeiro sábado de cada mês, a almoçarada era na casa de avó Ximinha.
Para este dia tinha-se anunciado um potente kalulu com os peixes da pescaria do dia anterior, tarefa realizada pelos profissionais Zecazito, Chiquinho Sambajazz e Ditinho Pingamor, que com suas clandestinas tarrafas espalhavam o terror e o caos nos cardumes da costa. E ele eram mariquitas, roncadores, pargos e mais pargos e ainda algumas garoupas apanhadas à linha nos pedragulhos do mar pelo tranquilo Jota-Bulanãopenteia, inimigo figadal de todos os recursos covardentos para apanhar peixe.
E lá estava avó Ximinha, envolta em seus garridos panos com a pescaria já toda limpa e extirpada, e os tomates, as cebolas, os quiabos, as aboborinhas, a gimboa e os jindungos, tudo bem lavadinho; e também as panelas e os tachos a postos de entrarem em acção naquele luminho já tão bem pegado, vivinho de chama em paus da praia.
Amigo dos meninos da casa, fui dos primeiros a chegar e, pelos vistos, fui o último a sair, pois parece-me que ainda lá estou...
E começa a partitura: avó Ximinha mune-se de faca bem afiada e corta as cebolas em metades, depois meias rodelas grossinhas; a seguir os tomates segundo a mesma lógica e tudo para dentro de um panelão enorme; chega-o ao fogo, acrescenta-lhe uma boa porção de azeite de dendem e sai mexendo, mexendo com a secular colher de pau a cada fervilhada mais forte.
E logo se podia contemplar o início de uma maravilha: aquele laranja mágico a passar para a cebola e para o tomate e este a deixar-se esmagar também em misturas de vermelho, agora alaranjado, já invadindo os olfatos da vizinhança e da criançada.
Agora a aboborinha, cortada em cubos...
Uma pitadinha de sal, uma malagueta de jindungo...
-Esqueceu os quiabos, avó Ximinha? - perguntei, mestre cozinheiro que já gostava de ser um dia.
Ainda não é hora deles, esclareceu Ximinha.
Porquê? - sempre os porquês nas cabeças crianças...
-Porque são muito tenros e desfazem rápido. Se eu os botar agora, no final você só vai comer fio e semente de quiabo, mas não o quiabo...
Aaaah!, tá certo, vovó!
Depois um copinho de água jorrado lá para dentro, e mais mexidelas, mexidelas, cheirinho bom invadindo o ambiente, saliva demasiando nas nossas bocas crianças à volta dela.
E vovó já colocando os peixes em posição de mergulho, cortados em metades, salpicados de sal...
-Agora vou só botar uns pouquitos quiabos assim abertos para largarem aquela baba boa no molho, mas não ainda todos; esses outros todos só vou deitar quase na hora do peixe, um pouquinho antes. Peixe e quiabo coze depressa, vocês sabem, né?
A gente não sabia, mas dissemos todos:
Éee, vó Ximinha!
E mais mexidelas, delicadas reviravoltas nos legumes plenos de magia de palma…
-Neste preciso momento... – esclarece a avó - chegou a hora de colocar os quiabos, depois de lhes cortar as pontas, e mais uma porçãozinha de pequenos jindungos, assim fechados... sem abrir, para não picar muito demais nas crianças...
Avó! -mas a gente todos gostamos de jindungo...coceguinhas na língua, hihi!, disse um.
Ximinha riu, e então botou mais uns três, ou dois, lá para dentro...
Depois vi que ela sacou um pequeno peixe todo amarelento de dentro de um saco e também o atirou para o panelão...
Hiiiih ?! - esta a criançada não percebeu patavina.
Quéisso, vovó?
-Peixe-seco, para reforçar o sabor do peixe...e para o remate!
Remate? - espantou-se a turminha de mirones.
-Éeee!, depois vos conto, no finalzinho do almoço. - tranquilizou-nos.
A gente esperaria esse finalzinho, certamente. Lhe prometemos em silêncio.
Agora uma profusão de verde com a gimboa toda a ser espalhada e misturada naquela maravilha e a avó já dispondo - com rigores geométricos – o peixe todo no panelão, dando-lhe uma banhada naquele fantástico alaranjado num lado, e deitando-os depois, delicadamente, sobre o outro. Depois ainda uma pequena tigela com uma mistura de água e fuba de mandioca, para engrossar o molho. E mais umas mexidelas, delicadas para não magoar os peixes, dizia.
E só neste momento Ximinha tampou a panela, deixando porém uma pequena abertura, certamente para excitar, com aqueles tentadores vapores que por ali se escapavam, as gulas dos mais velhos que já se abancavam com as respectivas cucas na mão...
E agora já uma outra panela com água fervente para bater a fuba, farinha de mandioca bem fininha que logo logo se transformava numa potente cola, combinação deliciosa naquele divinal molho.
E logo Betinho se armando do pau sacado de uma vassoura para fazer o seu habitual show de bater a fuba com batidas rítmicas de músicas conhecidas: sentado num pequeno banco, panela bem presa nos pés, Betinho era todo criatividade batendo e revirando a massa; e já a tarefa a ficar-lhe difícil, a cola a agarrar-se teimosa nas paredes da panela, ameaçando emborbotar; risco vulgar para Betinho, o mestre de bater o fundje, que logo logo lhe vedou os intentos com umas ameaças e mais umas potentes pauladas bem puxadas.
A massa obedeceu, e ficou pronta, lisinha, delicadamente sacada da panela para uma travessa com a ajuda de uma colher molhada em água - para não colar - e já o panelão se encaminhando para a mesa nas mãos de Ximinha…
Hii!, Uáaa! - todas as bocas em salivosos espantos, narizes rebentando pelos apuros de aromas, o mundo cheirando a kalulu, cheirando a avó Ximinha com perfume de outras maresias…
A criançada ficava numa outra mesa, mais baixinha e sem cadeiras nem bancos; alguns se orientaram numas latas, outros se ajeitaram mesmo de joelhos na areia, colheres de alumínio nas mãos, excitados, contentes…
De realçar que em casa de avó Ximinha as crianças tinham a primazia sobre os mais velhos, pelo menos nestas coisas do comer: nós éramos os primeiros a ser servidos, pela própria mão de vovó Ximinha que sempre nos ia deitando a comida no prato acompanhada com doces e pedagógicas palavras: comer devagar, atenção com as espinhas, limpa a boca antes de beber a gasosa, bom apetite, comam devagar…e depois já podem ir brincar, se arder muito na língua…vocês que pediram, não se podem queixar…!
-Está bem vovó, obrigado vovó Ximinha! – respondíamos quase em uníssono.
Alguém entretanto ligou o quitoca, que já ia runfando um merengue bem animado nas colunas de rádio de carro penduradas no coqueiro…
Acabada a refeição para a criançada, pedimos licença para ir brincar para a praia e saímos correndo, felizes de barriga satisfeita com a língua ainda a arder, picando.
Voltamos exaustos quando os mais velhos já dormitavam em esteiras na areia, em redes entre as árvores e até estirados em sofás de aduelas de barril…
E sem que tivéssemos combinado nada, gritamos ao mesmo tempo:
-Vovó Ximinha: falta o remate; queremos ver o remate!
Avó Ximinha, com aquela ternura com que sempre nos emocionava, passou-nos as mãos pelas cabeças e disse baixinho para não acordar os outros:
-Oh!, que pena! Esqueci de vocês e já rematamos, eu e Betinho. Fica para a próxima.
E ainda não foi dessa que eu fiquei a saber o que era aquele enigmático
remate.
Hoje, passados séculos e já sabedor de tal maravilha, sempre coloco um peixinho seco nos meus kalulus
Para os meus remates, agora maiores que nunca, porque sempre juntos com aquele primeiro remate que vovó Ximinha se esqueceu de nos lembrar!

Os nossos tristes chulos...

Mais uma vez, lá na ditosa biblioteca que consegui em gratuitidades de Alzheimer, encontrei outra jóia de que já nem fazia ideia que existia. Não vos maçarei com citações nem com conselhos à moda do Saramago, - que ainda recentemente aconselhou a senhora Clinton a abandonar o nome do marido - mas sempre vos indico o nome do autor:
R. Buckminster Fuller; Bucky Fuller, para os amigos.
E digam de vossa justiça, sobretudo após ficarem sabedores que a nossa vida no planeta está meio milénio atrasada em relação ao que a ciência já sabe.
Pois, caprichos do egoísmo das grandes corporações e dos seus lacaios políticos, presidente dos Estados Unidos incluído, por mais Obama que ele seja ou mais Bush que se venha a tornar!
No final, sobra-nos a perplexidade sobre os tristes papéis representados por seres pequeninos como o triste Sócrates, o inchado Barroso ou o patético Berlusconi, por exemplo...

sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Nos quedan las canciones...

Que estranha fraqueza é esta que nos faz sempre perder?
Que secreta força é essa que sempre nos derruba ?
Acabei de ler o último post de Condado e fiquei perturbado. Talqualmente perturbado como sempre fui ficando, dia após dia e em todas as novas horas, até aquele 'libertador' Abril de 1974.
E tal como outros - os do costume - tinham arquitectado e previsto, foi a partir desse dia que tudo, verdadeiramente tudo se começou a fragmentar em mim, em perdas várias...
Fulminado pela desilusão, não tive mais vida para viver, ideal para perseguir, sonho para sonhar; e então deixei-me ir morrendo devagarinho, devagarinho, quase parado, parado assistindo a mais uma derrota dos eternos derrotados de sempre - os que levam os sonhos, as lutas e os amores, vencidos, para a tumba.
Diz o Condado, que ainda nos restam as canções...
Para nos des-sangrarmos mais?
Lágrimas da derrota?
Resta-nos o 'olvido', o esquecimento...isso sim!
Ah! e o cinismo, também...
A ver se a vampiragem se esquece de nós, pelo menos durante os breves anos que nos 'quedan', os que nos sobraram como prémio de desconsolação...
El derecho de vivir en paz!
E os novos jovens que nos continuem, seguindo as tradições:
Perdendo, mas todavia lutando e fazendo canções...

Camaradas...

Imediatamente após a independência de Angola, os amigos conhecidos - e também os inimigos desconhecidos – passaram todos a ser designados como camaradas, para implemento do internacionalismo proletário, pregava-se.
Era a revolução socialista para a nossa terra, transportando todas as utopias fracassadas noutros lugares para ver se também fracassavam no nosso.
Experiências mundiais da maldade!
Coisas pouco graves!, regista a História na sua velhice toda.
Porém, como éramos atrasados, ainda dispunhamos de algum tempo para nos determos mais um pouquito entretidos nessas falhadas experiências, pois que o mundo civilizado - certamente - até nem iria dar por nada...
E tão pouco o planeta Terra mudaria o seu curso de rotações, certamente.
E então lá vieram - para os destempos históricos que ali se registariam - os camaradas da Rússia, os camaradas de Cuba, os camaradas da Argentina e até, pasmemos, os camaradas de Portugal e os camaradas do Brasil. E assim se estabeleceu uma boa camaradagem internacional, simplesmente cooperante e bem disposta, mas não raramente muito bem remunerada em petrodólares…!
Entretanto o padeiro, senhor Joaquim, deixou de se chamar Joaquim; o merceeiro, senhor André Comandita, idem; o motorista do machimbombo, Ezequiel Catambor, negrão de mãos brancas todas queimadas em águas quentes dos descuidos de criança, também mereceu a mesma sorte: todos viraram camaradas incógnitos de nome, mas cógnitos pela profissão, ou pela disfunção.
Então viraram o camarada padeiro, o camarada merceeiro e o camarada motorista.
Certo dia, de um terraço de prédio na avenida dos combatentes, onde fazíamos uma farra bem animada pelo aniversário de Margarida - malanginha heroicamente regressada feita cooperante – presenciamos o que se podia chamar um furto de uma bicicleta no quintal do prédio e, azar internacionalista, veículo propriedade de Margarida, a malangina cooperante internacionalista.
Vendo a ocorrência, Margarida berra a todos pulmões lá de cima dos andares todos:
-Camarada ladrão!, não rouba a minha bicicleta!
Deslarga!
Ouvindo tão carinhoso e revolucionário nome para a sua função de roubar, o camarada ladrão pousou a pedalante no originário lugar e gritou lá para os cimos:
-Desculpa!, camarada vizinha, pensei que esta bicicleta era minha…
-Estamos juntos!, ainda agradeceu Margarida.
E lá prosseguiu a farra animadíssima, noite socialista adentro, espatifando-se a madrugada a Vodkas e Mojitos, Cucas e mais Cucas…
...
No outro dia, o sol brilhou para todos nós..., como garante e canta a Internacional!
... Apesar de a bicicleta da malangina se ter evaporado, outra vez.

quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Filme indiano? ...Vai no Batalha!

Segundo estatísticas americanas, 50% da população mundial padece de problemas psicológicos, ou seja, em cada duas pessoas uma está psicologicamente perturbada.
Portanto, em verdade estatística, em todos os casais existe um membro que sofre de perturbações mentais.
Logo, garantidamente, pelo menos um deles vive com uma pessoa desinteressante, isto se partirmos do princípio que quem é perturbado não é interessante. No mínimo.
Implicação verdadeira!, diria o velho lógico!
E logo as minhas primas são umas retardadas, por falta de razão ou, simplesmente, por falta de peso ou autoestima elevada demais! Auto-autoestimadíssimas!
Digo eu, apesar de pouco adepto destas coisas da lógica e da estatística.
Trocando em miúdos:
Estava aqui o velho Jonas discreteando com o seu cão quando lhe bateram à porta as primas:
E diz a primeira delas:
-Porra, todos os homens interessantes já estão ocupados, e quando não, são gays.
Diz a segunda:
-Vim ao Porto ver se a coisa estava diferente de Lisboa e, afinal, está tudo igual!
Seguiu-se um longo e infrutífero diálogo onde, aqui e ali, tentei meter umas farpas, a ver se…
-A ver se… merda nenhuma, ó primo Jonas! A verdade é essa e pronto:
-Ou tu achas que sou uma gaja desinteressante?
Passei…
(Venham mais cartas, a ver se…)
E arrisco:
-Então e as gajas interessantes também não estão todas ocupadas, tal como os interessantes gajos? E quando não, também são fufas?
Que não era bem assim, me esclareceram as primas interessantes.
Ah!, já percebi tudo…
Então passei a fazer-lhes as contas segundo os ditos dados estatísticos recolhidos pelos americanos:
Se em cada dois, um é perturbado, temos que o vosso universo de escolhas já se reduz a metade. E como não sois fufas nem homens, já o vosso grupo desce para os 25%. É nesse quarto (metade da metade) - a dos não perturbados – que reside o grupo dos eventuais interessantes que, segundo me parece, é onde vós quereis fazer a vossa escolha, e de quem lamentais a indisponibilidade.
Assim sendo – mantendo como sempre verdadeira a vossa afirmação que os homens interessantes estão todos ocupados, ou são gays – então eles estão todos ocupados, no mínimo, com outras em igual número que eles; que são, pela mesma verdadeira metade estatística, psicologicamente perturbadas. E logo não pertencendo ao vosso grupo, já que não vos sentis perturbadas…
Ficamos então com a consequente implicação lógica adversativa que nos garante o seguinte:
Ou pertenceis a um grupo de 12,5% de pessoas, constituído por mulheres não perturbadas, ocupadas e não gays;
Ou ao outro grupo das restantes 12,5% de mulheres perturbadas, ou gays.
Certo?
Mas dispensemos o primeiro grupo, já que não estais ocupadas nem sois gays, e partamos para o restante segundo, o das desinteressantes ou gays:
-Pára!, pára aí seu maluco! Não é nada disso que estás para aí a dizer!
Pois não!, retorqui-lhes. A coisa ainda vai se agravar…!
-Faz-nos mas é um cafezinho e deixa-te de bazófias...!
Pois faço, e é para já!, mas entretanto aconselho-vos a pensarem na solução-India, onde a proporção de homens para cada mulher é gritante...mas possivelmente muito entusiasmante...
Talvez que por essas bandas os vossos conceitos de interessante se diluam mais um pouco, sei lá...
________________________
p.s.: E sei lá, mesmo!
Aliás, que mais podia saber o meu - perante aquilo! - desinteressante ser?
Adoro as minhas primas, podeis crer!

quarta-feira, 1 de Abril de 2009

lá, onde tudo se justa

Atestam os relatos da aldeia que a cabeça de Abel Kaipemba tinha falado sozinha, naquela noite de lua cheia...
Arrancada do corpo por potentíssima catanada de vizinho ciumento, a cabeça de Abel proferiu ainda estas últimas palavras, olhos de sangue bem fitos no justiçante:
-Depois justamos contas…, !
E desde esse mesmíssimo dia o vizinho ciumento deixou de mais dormir as noites.
Apenas ficava assim desdormido sentado no banco debaixo do cajueiro, cabeça pendendo pendendo, mas em permanente vigília cismando naquele .
E quando não, infernizando a vida a Chiquinha, sua mulher: talvez ela, única escapante da sua fúria ciumenta soubesse mesmo do paradeiro de tal lugar, cismava.
E recismava: talvez, talvez, talvez de certeza mesmo ela conhecesse esse lugar …!
-Fala onde vocês mesmo se encontravam? – lhe perguntava em bafos etílicos depois do dia todo passado na taberna bebendo no desenfreio. Bebendo o freio, melhor dizendo.
Chiquinha sempre dizia nada, desconhecedora de facto; porém medrosa, estupefacta.
Mas ele repeticava, ameaçante:
-Fala, quitata: onde ele quer se justar comigo?
E Chiquinha, nada, sempre nada, esperando que o sono o derrubasse, arquitecta do tempo.
Até que um dia, numa daquelas cansadas noites de lua cheia…
Pendia em sonolências pouco vigilantes o ciumento debaixo do cajueiro quando o luar se reflectiu denunciante naquela mais que nunca afiadíssima mesma lâmina de catana. Porém tarde demais já era para a desconstante vigília o avisar: decapitombou-se-lhe a indormida pendente cabeça do resto do corpo, cujo se manteve ainda sentado, patético, por mais uns minutos até se esparrachar todo ao comprido no chão de terra, incompleto...
Estupefacta, olhos arregalados para o cajueiro em flor, a cabeça do ciumento no chão de terra vermelha também falou:
-Afinal, … é aqui?... lua grande…cajú em flor…!
Chiquinha disse nada.

terça-feira, 31 de Março de 2009

PrEGOnoprato

Um meu amigo de juventude não se lembra de mim...!
Decorreram uns curtitos trinta e sete anos desde que saí de Luanda, e meu amigo não se lembra de mim...
Nem com foto! Recente foto, confesso, mas mesmo assim...
A guerra que se seguiu à minha partida - certamente - matou-me a mim e a outros mais na cabeça dele para que ele pudesse sobreviver. Só pode.
Mas mesmo assim fiquei muito contente de o saber vivo e feliz, apesar da minha morte nele.
Soubesse ele também pelas guerras que cada um dos outros passou, e ao que foram obrigados a apagar para sobreviver, não se surpreenderia tanto! Como eu ainda me surpreendo, aliás.
Porque guerras há sempre muitas. Umas mais sangrentas que outras, mas todas elas violentadoras das merecidas paz e felicidade de cada um.
Uma simples desilusão de amor a gente troca por uma guerra mundial.
A morte de um certo e determinado ente querido, a gente troca por uma qualquer hecatombe no mundo todo, um tsunami, um vulcão em perpétua erupção...
De facto, há demasiados lugares insondáveis do nosso bestunto, excessivas palavras para as coisas simples, mas poucas ou nenhumas explicações para as situações mais complicadas: precisamente aquelas que mais queríamos ver esclarecidas, simplesmente.
Quando a gente afirma ao amor da nossa vida: amo-te mais do que a tudo na vida! - o que realmente estamos a afirmar? Até onde vai esse tudo? Será que a nossa cabeça, sozinhando por ela adentro, permitirá uma coisa dessas?
Claro que não! Ou claro que sim!
Mas depois ainda outra questão: permitindo ou não, até quando essas permissão ou proibição vão durar?
Durante quanto tempo são verdadeiras as razões da nossa deusa Razão?
Eu respondo, se mo permitis:
-Até à próxima guerra!
Sejam quais forem e aonde forem os campos de batalha...!
Mas toda esta lamúria porque - bem lá no fundo - o que me dói agora é o ego, esse imbecil.
O meu amigo apagou-me dele, e eu fiquei muito triste de mim.
Afinal..., eu não fui tão mais importante que uma formiga na vida dele...
Contrariamente ao que sempre julguei!

segunda-feira, 30 de Março de 2009

Palavras bonitas...

Há, em todas as línguas, palavras tão lindas de se pronunciar que qualquer significado que se lhes arranje para elas terem, pouco já importa. A gente usa-as mesmo, nem que seja à-toa, em descontexto, imaginando-lhe um significado totalmente distinto.
Não quero desenvolver nenhuma tese – o diabo me livre! – sobre signos, símbolos, significantes, significados, conceitos e outras fenoménicas tralhas das coisas-em-si e das outras-a-ser que muito divertem a rapaziada das filologias e das filosofias. Não! Nada disso.
Meu assunto é prosaico: palavras bonitas de pronunciar: só, sem mais quês nem requês.
No caso de hoje – e que me puxou para esta conversa – foi a palavra cambotermos, em kimbundo, um dos dialectos angolanos.
Cam…bo...ter…mos !, que coisa fantástica para se chamar a alguém singular, insultando-o assim em forma tão evidentemente plural.
No singular e no plural:
-Tu és um cambotermos, meu!
-Vocês são todos uns cambotermos, seus sacanas!
Esmiuçando: como cambo vem de cambaio, torto, então logo se vê que os termos pelos quais se regerá a criatura não poderão ser direitos; daí o cambotermos significar pessoa sem vergonha, troca-tintas…
No entanto, se significasse, por exemplo, pessoa baixa, cambaia e mal acabada, até que não nos espantaria; ou significando timidez, como por exemplo numa inventada situação, ao ouvido da namorada recém-conquistada:
-Queria ser capaz de te dizer, com todos os termos possíveis, o quanto te amo: todos os cambotermos…meu amor!

Como esta, só o onzeneiro, que muito se diz lá para bandas de Ponte de Lima, embora na pronúncia incorrecta de anzuneiro.
Porque – tal como o termo cambotermos – também o termo onzeneiro denuncia logo prefixamente o significado: pessoa que trata sempre de levar mais unzinho do que os iniciais dezitos acordados (em minha tradução); usurário, segundo os dicionários…
-Tu saíste-me cá um onzeneiro…!
É evidente que como estas devem existir milhares, mas que querem…?
Foi a que me pululou hoje no bestunto, feita verme, fazendo-me rir.

sexta-feira, 27 de Março de 2009

Pessimentalmente...


Analisando a história, nem mais nenhuma história há para contar. Sobrou apenas algo dela para se aproveitar, em jeitinho comentário-boca-doce, sempre que eventuais desinteresses - práxicos interesses – assim o justificarem;
O futuro já era, já foi e não voltará nunca mais na sua forma de inícios e novidades, como era costume os futuros todos virem: virgens futuros, adocicadores de vidas.
O futuro acabou!
Talvez que ele volte um dia, mas nesse dia ele vai ser só páginas passadiças, repetititidas, sem passagem para lugar nenhum; e muito provavelmente com rosto de tragédia, pernas cambaias, pernas bucas, coxo de nascença e fedendo a milenares mofos.
Tudo isso só para amarrotar ainda mais o presente aos jovens...
Falo por experiência:
No dia em que descobri que a lua se punha nas traseiras do meu quintal, a boçal vizinhança invejosa tratou de me mandar prender…
E a polícia toda tratou de me interrogar, ao som de chibatadas…
E eu nem aí, já nem vendo lua nenhuma, duvidando da existência de tal criatura lá pendurada no tecto das noites…
Quanto mais no meu quintal…!
-Lua existe?
Quando Campanela sonhou a Cidade do Sol, já eu andava por aí, dando água sem caneco…
Falo por experiência:
Sobreviver no meio desta cangalhada meteórica poeirenta não vai ser fácil…
Por isso eu vos viso:
-JOVENS DE TODO O MUNDO: FUGI-VOS!
…Para bem longe, lá para a mais distante utopia de vós!

quarta-feira, 25 de Março de 2009

Catando pulgas com luvas de boxe...

(para o Condado, do mardaman, que me pensa mais poeta do que sou.)


Hi!, afinal eu não sabia: a nossa vida é mesmo só um vulgar somar contabilístico…
Deve para a esquerda; Haver para a direita. E nos finalmentes, ao centro, acabando com as dúvidas todas, o Saldo Contabilístico. Nem mais, nem menos.
E depois o Resto zero! - como mandam as catedráticas sapatilhas!
Entenderam?
Já vos descomplico, no caso:
No deve da minha vida lancei sempre todos os resultados desempáticos apurados com os brancos; no haver, só incluí mesmo o que aprendi com os pobres, em empatias variadamente ricas. Tive então que fazer umas operações de filtragem para apurar quem era branco, mas pobre, e quem era de outra cor, mas rico. Assuntos empáticos, não rácicos nem económicos. Assuntos calhados, à toa mesmo.
Trazuzindo e apreguntando:
-Rico tem empatia?
-Pobre tem cor?
Resto Zero!, atestaram os auditores contabilistas da vida comum inspeccionando-me a escrita para me facilitarem a passagem para o próximo estádio: estádio próprio da existência deles, os cretinos.
-Resto Zero, mesmo!, berrei eu do lado de cá das vidas deles, todo inchado de morais estéticas.
Hum!, eles pensam que brincam com este contabilista?
Coitaditos deles!
Um dia destes volto a África, para os vomitar…
Ou à América, para os matar definitivamente, em todas as contabilidades…

____________________________________________________________
Ps: com tanta pneumatia, um dia destes ainda monto um negócio de pneus!

Contra-mão


Imaginasse Simeão o quanto lhe iria custar a tanta paixão por Magdalena, tinha desistido logo no princípio das custas, a meio da dependência do amor: naquelas primeiras lágrimas lhe cataratando dos olhos no momento em que a surpreendeu, no escuro da rua, toda em abraços e beijos a outro que não ele.
Voltou para casa, todo derrotado, desfrangalhado.
Só que o outro que não ele, afinal, era ele mesmo, Simeão. Assim constou nos relatos gozados da vizinhança, assim também constou na ficha clínica do hospital psiquiátrico para onde foi levado, mas assim não consta na memória visual de Simeão: outro que não ele havia beijado e abraçado sua Magdalena no escuro daquela rua, sob a copa daquela árvore e perante o seu esgazeado olhar de fogo, maçaricado por entre suas derramosas lágrimas.
Passaram-se os tempos, voltou curado - dizia-se por ali - e reapaixonadíssimo por Magdalena, a pura.
Lhe restava só a ténue lembrança de nesse dia das dolorosas terríveis visões ter fumado um charraço de uma cangonhazita, e também ainda mais uns posteriormentes passados no hospital, com os médicos a atribuírem as causas de tudo às paranóias, diarreias mentais que esses fumos provocam. Mas mais nada.
E o caso ficou-se encerrado por aqui.
E mais uns outros tempos se passaram...
Certo dia, apetecendo a Simeão muito beijar Magdalena, foi procurar Magdalena para os beijos, os abraços, viagens lunares…
Quase chegando ao lugar do costume, outra vez a mesma terrífica visão: um outro que não ele se abraçava em trocas de beijos com sua Magdalena!
Cego, surdo e berrante lança-se em desenfreios de faca contra as costas do maldito traidor. E então tudo foram só chagas profundas, desfigurantes, jorrantes. Depois a mesma cena a repetiu com Magdalena em convulsivo choro, enquanto lhe esquartejava o amado rosto.
A tais berros acorreu a vizinhança, que quando chegou ao local, nem mais queria ver:
Simeão jazia morto e todo desfrangalhado, costas esburacadas por incontáveis facadas, olhos e rosto em inundação de rio, lágrimas sangrentas.
A seu lado, não jazia Magdalena, a inexistente pura.
Dizem agora as boas línguas do bairro de Sambizanga que Simeão sofria de duas caras, duas personalidades muito mal acompanhadas por muitos outros espíritos dentro da cabeça dele, sempre o obrigando a cometer contranaturais actos, sobrenaturais mandamentos, como esse de se assassinar a si-próprio, pelas costas…ao contrário.
E foi assim que Simeão se eternizou:
Simeão, aquele que morreu na contra-mão!
Cantam, os candengues do Sambila.

terça-feira, 24 de Março de 2009

O Um e a Outra (revisitados)

O Um...
Sonhei-a assim toda, tinha eu quase quinze anitos: homem já quase todo feito e pronto, segundo todos os procedimentos estabelecidos nas tradições da minha gente;
Sonhei-a assim toda tatuagem e tatuagem, detalhe e detalhe, poro e poro, vestida com os coloridos panos, nua todinha, deitada e em pé, caminhando, imóvel, dormindo, falando, calando, amando, chorando, sorrindo, dançando…
Sonhei-a assim toda minha exclusiva, completamente intocada por ninguém e perfeita, tal qual como eu naqueles meus todos catorze quase quinze.
E de tanto que a sonhei, se me concretizou esse sonho como vida sonhada mesmo.
Casamos em meio de festivas comemorações e alegrias de toda a nossa gente, povo puro dos matos do sul.
Agora, tripassados que são os três primeiros anos de vida junto - e pensando melhor- às tantas eu não a queria assim tão perfeitamente acabada, tão-tão mãe dos seus filhos e, pior, se escusando a si própria de me dar razão nenhuma, para eu, nos mínimos, ter queixas contra.
Nem uma nenhuminha vez, sequer!
Por isso eu agora já nem sonho mais, por falta de validade dos meus sonhos.
Quem quer sonhar sempre, não pode realizar nunca!
Todos os sonhos são só sonhos de nunca realizar, de nunca acabar.
E quando se realizam, acabam, e se acaba tudo também com eles!
Nós incluído.
Porque afinal tudo foi só coisas de criança.
Coisas de criança quando já se é homem quase todo feito e pronto:
Desfeito e tonto, mas é!
A Outra...

O meu nome é menina, logo pouco conhecedora do mundo. Talvez por isso recorde amiúde os ditos entrecortados dos meus mais velhos, sempre atentos a que as crianças não escutassem certas conversas.
Restaram-me então frases codificadas que, no decorrer dos meus poucos anos, fui traduzindo mais ou menos assim:
Os sonhos dos homens têm o tempo daquela própria concretização, que por costume sempre é breve. Se demorar muito, partem para outro sonho. E de sonho em sonho esgotam a vida toda, muitas vezes sem a ter vivido.
Em mim, pelo contrário, os sonhos são coisas mais duradouras, não se esgotam apagando-se como estrelas ou fogueiras.
E então, quando encontrei a pessoa encantada, mais dilatei o meu sonho e a vida tornou-se muito curta. Embora me mentindo eternidades.
Porém meu marido desencantou de mim por causa de nada: por causa de ciúme dos filhos que ele sonhou comigo ter.
E agora já quer partir – insonhante - em viagem de profundos arrependimentos para muito longe, deseternizando-me ainda mais.
...Na verdade eu já sabia que muitas vezes morremos sem terminar os nossos sonhos, mas não consigo esquecer o inebrio do dia-após-dia na vida disfrutando da possibilidade de envelhecer ao lado de um sonho sem que ele tenha já partido para outro.
Por isso eu quero continuar assim menina para sempre:
Principalmente agora que meu marido quer ser homem…

segunda-feira, 23 de Março de 2009

Ultraje

Por que estranha razão deixaste de me falar as importantes falas?
Fiquei-te estranha ou, empiorando, fizeste de mim uma tua desconsiderada, inexistente?
Uma tua nada?
Estranho como ainda ontem - em meio de beijos e muitos mais carinhos - me juraste as juras sem que sentisse no teu olhar notáveis diferenças, mas está bem:
Disfarce é coisa de homem quando é homem.
Quando é macho.
Homem um dia sim outro dia não, e na mesma hora, com a mesma cara: máscara diabólica com sorrisinho de anjo! Esgar vazio de tudo ou cheio de nada, no que vai dar ao mesmo.
Estou porém acostumada a brutais derrames sanguíneos com as minhas ilusões. Não seria agora por mais esta uma que me haveria de deixar derrocar feita escombro. Ruína de mim.
Isso, nunca!
Sabes onde moro, quem sou e para onde quero ir. Contigo.
Deixo portanto o restante para as tuas indecisões, teus apagamentos de memória de mim quando não me falas as importantes falas do teu falar...

sábado, 21 de Março de 2009

esse é o teu assunto?

Hoje temos que o assunto não é assuntável: o tempo que se me vai indo sem eu lhe sentir a existência nem o andamento. Ontem mesmo eu era só um candengue irrequieto, sempre satisfeito; hoje já sou um mais-velho, só mangonhando pelas sombras das árvores e as margens do rio, zuzuando por aí à toa, coloquiando com os bichos, trelendo os mesmos livros sempre em transversalidades e transtextualidades para outros mundos, por isso nunca os acabando de entender totalmente, porque já ficam muitos para ser: de um, faço dez! E depois dói-me a cabeça, e tenho de desistir.
E outra vez voltar à primeira página do primeiro livro…
E o mesmo se passa em mim com as pessoas. Nunca as entendo em fogo vivo, tudo é só coisa fátua, inclareza de intenções. Umas vezes querem, outras não querem, falando as mesmas palavras. E depois então já essas pessoas para mim viram outras, e depois mais outras, outras, outras…
E outra vez a dor de cabeça. E eu a ter de desistir, de novo.
Tem gente que, neste inexorável andarilhar do tempo a desenhar rugas nos todos corpos, inventam brigas com os seus espelhos, travam violentas discussões com as suas fotos de outroras muito longínquos, carregam malas de viagens nunca desfeitas, nunca embarcadas - todas elas repletas de roupas nunca vestidas - atropelando a placidez do trânsito que deve reinar nas caves e nos sótãos da vida.
Eu não!
Continuarei só zuzuando por aí à-toa – como já vos disse - apanhando do chão, colhendo das árvores ou mesmo até roubando das estrelas e do mar e do rio e do vento todo esse tanto amor desperdiçado...pelos muitos preocupados com as rugas da pele: desvividos!
Pior que envelhecer, é envelhecer mal!
Assim falava o meu mestre, o inominável, o que não gostava que se lhe atribuíssem autorias, por boa medida da sua humildade.
Superioridade!, digo eu, João Bula.

Roque Santeiro, o musseque...

VENDE-SE PREFUME
Mas atenção. CAMARADA:
PRECISA TRAZER FRASCO!
- Quem não consegue morrer depois de ler esta propaganda? Hein?
Eu, morri facinho, facilinho, imediatinho, logo logo no primeiro olhar.
E então me apeteceu só ser portador de um monte de frasquinhos para camarada prefumeiro encher, encher, encher, me distribuir devagarinho e aos poucos aqueles aromas inventados nem sequer sei onde nem como, por meus frasquinhos, pequeninos, tão pequeninos, inexistentes...
Camarada: Precisa trazer frasco...!
Que forma mais estranha de vir morrer em África.
-Mas para cheirinho bom da vida precisa frasco?
...
______
ps- vou ali ao canto ressuscitar, e já volto.

Kuduro...

Vocês, tristes criaturas da vida europeia e fria, imaginam-se a dançar, em derrames de erotismo, o vosso hino nacional?
A Portuguesa?
A Marselhesa?
A internacional?
Acredito que nunca, nunquinha mesmo!
Pois eu, Jonas Ndengue, já dancei e muito me entuasiamei de erotismos com uma portente latona, toda ela tetas me sobrando na cara e noutras ambições, dançando a canção de homenagem a Agostinho Neto - nosso adefuntado presidente - em ritmos e revirangas demoradas, demoradinhas, de um kuduro bem puxado pela banda de Zezé Pirolito...!
-Você conhece kuduro? Hein?
-Você não conhece é nada, meu!
...quanto mais Zezé Pirolito!

sexta-feira, 20 de Março de 2009

Caí mesmo...!


"tabi ni yande
yume wa kareno wo
kakemeguru"
Quando li esta salada russa, pensei: alto!, temos aqui mais um escritor africano!
Porém, continuada a leitura, eis que a desdita salada russa era só japonês, antigo: é um célebre e último haicai do mais famoso dos haicaístas, de nome Matsuo Bashô, o figurão.
Então a coisa traduzida diz o seguinte:

"Doente em viagem
sonho em secos campos
Ir-me enveredar"
Agora resta-me dizer-vos - aos que não sabem como eu não sabia - o que é um Haicai, ou Haikai:
Haicai, ou Haikai, é um...
Esperai lá: vocês têm internet, não têm?
Então ide lá ver, seus preguiçosos!
Talvez vos sirva para sacarem umas coisitas para os vossos blogs, que sei eu...?!

quinta-feira, 19 de Março de 2009

Dia do pai...

Uma vez por ano, os meus filhos lembram-me a condição de pai deles, e sempre represento a mesma fita: maldisfarço que até nem me lembrava desse dezanove nem deste Março, apesar da mãe mo lembrar logo pela madrugada...!
Mas digo assim porque, realmente, passam-se os outros todos dias do ano e não há meio de me lembrar de tal coisa. Não sei se a eles tal lembrança lhes ocorre ao bestunto, mas a mim, seguramente, não. Juro mesmo.
Andei estes anos todos sem saber verdadeiramente o significado de ser pai com eles. Soube-me o amigo, o companheiro, o coveiro, o chato..., mas não me soube o pai, assim só pai, todo investido de pai.
Agora, que um dos meus filhos também já é pai, posso ver - pelo lado de fora - o quão maravilhoso é ter filhos. Sejam eles quem forem ou vierem a ser. E foi preciso chegar a esta terminal situação de avô para conseguir apreciar o ser pai que os pais normalmente são, ou deveriam ser.
Que vergonha!
Em resumo, neste dia do pai, a única coisa que me ocorre dizer é que graças aos meus filhos que se lembraram de me comemorar a data, me apeteceu hoje também a mim ser filho, só mais uma outra vez, mas agora, a sério: escrevendo também um postalzinho ao meu velhote!
Que bom milagre seria, Mingos!

Aiué, malambas...!

Era na Missão de S. Domingos que todos os filmes se passavam, aos domingos à tarde.
Ali mesmo muito vizinho, o Forte de S. Domingos ameaçava - avisante - que não se devia falar mal do colonialismo, palavrão ignorado por todos os nossos dez anitos de idade. E para o provar, ali estavam encarcerados muitos intelectuais angolanos: Luandino Vieira, Liceu Vieira Dias e outros, lembro eu. Ou muito mal me informaram.
Nesse domingo, após as sacramentais paracucas e quifufutilas compradas à porta, entramos para o filme, na propriamente dita matiné.
Shane!, era esse o nome do filme e do artistinha cow-boy, que nas outras vidas mais mentirosas dele se chamava Alan Ladd, falecido agora que já é, faz tempos.
Os assentos, hi!, os assentos eram só aqueles banquinhos de ginásio, muito rasteirinhos e insuficientes para as multidões de crianças, ávidas de aventuras só na tela, porque na vida já todos tinham que chegasse.
A barafunda instalava-se. Aí, os misericordiosos padres franciscanos saíam enfurecidos distribuindo chapadas a todos, até nos aquietar, caladinhos.
E então rolava a fita. E veio o herói a cavalo: Shane, de seu nome!
Uma salva de palmas encheu a sala, mas o trotante cavalo de Shane não acelerou no galope, continuando assim só trotando, trotando, chegando naquela terra iníqua dominada por uma bando de malfeitores: homens da alta finança, ajuntados com as autoridades locais, xerife incluído.
Até que…
Shane entra no Saloon e encara com um monte dos malfeitores mal-encarados e pistolentos. E num local bem situado nas costas do artista, escancarou-se a barba de um bandido malfeitor, todo armado e pronto para os covardes disparos. Nesse momento, no silêncio da sala ouve-se um grito:
-Olha na tua trás, Shane!
Acto contínuo, Shane saca vertiginosamente do seu Colt 45 e abate o traiçoeirento malfeitor com um tiro certeiro na testa. E logo outro berro:
-Fui eu que avisei!
E depois mais berros:
-Fui eu!
-Fui eu!
-Mentira, fui eu!
-Qual quê, ninguém que o avisou mesmo!
E pára a fita.
E outra vez o padre franciscano distribuindo chapadas nos candengues…
Silêncio.
E de novo a fita com o Shane já porradeando e matando a bandidagem, enquanto um menino branco muito loirinho e órfão de pai vai espreitando tudo por baixo da porta de vai-vem do Saloon, chupando um chupa-chupa da Adam’s a cada sopapo do Shane
Eram assim os domingos, no Bairro de São Domingos…lá nos eucaliptos!

Mais falares à-toa, sem quê nem mais quês...

O que pai planta, filho pode desplantar...?
-Pode, se o deixarem! - disse o negro pássaro.
...
Arranjemos aqui uma conversa do vento para a brisa, do sol para a sombra...do avô-pedra para o neto-água-cristalina, conversa jorrando de fontes limpas e virgens. Cristalindas...
Imaginemos só..., sem pedras na cabeça nem às costas.
E então temos portanto que, repetindo...:
-O que pai planta, filho tem autoridade para mandar arrancar?
Consultei os livros da tradição, as opiniões dos cotas, as sensibilidades dos vizinhos: nada! Ninguém queria que se abatesse o frondoso pinheiro do meu quintal. Porém, eis que chega Johnny-boy, todo armante em seus vikings olhos e determina:
-Abata-se o pinheiro!
Seu pai, filho meu, habituado em patronatos da razão e de corpo, hesitou, hesitou e depois, qual carapau feito só carapalito, aquiesceu:
-Corte-se o pinheiro!
-Pára aí o baile!, berrei - Ninguém toca no espécime!
Então, mais apaziguante, democraticamente decidindo por todos, determinei:
- Os pinheiros plantaram-se para pinheirar, não para arrancar!
- Mas oh! velho...?
-Aqui não há mas nem meio mas: o pinheiro morrerá em pé, feito cavalo, feito homem...!
E a cena ali acabou: Johnny-boy enterrando os olhos de viking no chão; pai dele, o plantador, em situação piorada: procurando buraco para se enfiar!
E assim foi como o meu pinheiro ganhou mais alguma perenidade, em meu quintal de empedernido cota: avô, para os amigos!
Pois...

quarta-feira, 18 de Março de 2009

Falar à-toa...

Que tão longe vai o tempo dos romantismos...
Aquelas míticas cabanas que existiam gratuitas por todo o mundo só para aqueles que sonhavam com um grande amor e uma pequena cabana, desapareceram; isto é: converteram-se em bungalôs de luxo só acessíveis a bolsas milionárias sem amor nenhum para dar a ninguém, nem a nada;
As fugas com as namoradas para longínquos desconhecidos lugares, antigamente, duravam toda a vida; fugia-se de casa em actos positivamente afirmativos; agora, ameaça-se a família das mesmas intenções, vai-se ali ao hotel mais próximo e volta-se para casa, envergonhado, por ter pressentido - nos gestos agradados dela - uma grande disposição para aquela luxúria hoteleira, coisa impossível de se lhe garantir numa intensa aventura do coração.
E como fugir para uma cabana de amor com uma mulher destas, tão facilmente encantável com o supérfluo da vida?
-Give love a chance, minha!
Quem feio ama, hoje, horrível já lhe parece!
E de tanto que lhe vai parecendo, a coisa vai desfalecendo...
E só dos fracos é que vai rezando hoje a História: sobretudo daqueles que sempre tudo tiveram sem as necessidades impulsivas do amor, ou os sacrifícios da labuta.
As adrenalinas, as loucuras do vento batendo gélido nos olhos e nos ossos, ao volante de uma mota atravessando savanas e savanas rumo ao nenhures das distâncias, lá onde habitam as luas e os choros animais, tudo isso são filmes muito estranhos para as gentes de agora, que se amam trajando distinguidas roupas e grunhindo plásticas palavras - também elas de amor, dizem eles.
De forma que os tempos de crise que se avizinham vão fazer muitos estragos, em todo o mundo.
Veremos pais - em lágrimas de derrota - chorando filhos na prostituição, na droga e no crime violento; pais chorando definitivas fugas de seus filhos de casa, mas desta vez para lugares onde inapeláveis suicídios permitirão nenhum regresso;
Irmãos vão-se desirmanar, amigos perderem-se, cidades inteiras arruinarem-se em escombros de tristeza...
E enquanto essa ruína se desmorona, os políticos de todo o mundo esperarão que a crise passe sozinha, naturalmente, e aproveitarão para tirar umas férias de relaxamento, lá naquelas cabanas do meu tempo, inventadas para as fugas de amor...
-Run, man, run!
Vamos todos para sul!

Cartinha para adormecer adulto...

Hoje mais queria te falar, Johnny-boy....
Passaram-se os dias, as semanas, as luas e as expectativas de todos os teus chegares aqui, mas não chegaste. Bem sei que obedeces aos contratempos da vida dos teus pais, mas o problema teimosamente subsiste: queremos-te tanto aqui a toda a hora que nem hora nenhuma pode sobrar para justificar os tempos urgentes das urgências paternas, culpas assim eventualmente transferíveis à boleia de ti, impotente que ainda és nos teus não-saberes-do-andar, inamovivelíssimo...
Mas retomemos a conversa, pá!
Há dias também o Boris perguntou por ti, em tristes ladrares dispersos:
-Cadê JB?, ladrou-me interrogante...
Emudeci-me-lhe na verdadeira resposta, para não o entristecer mais.
E depois também o cágado me veio com rasteiras perguntas...
E as galinhas...
As vizinhas...
O pinheiro…
A lua...
As estrelinhas, semeadas no jardim…
A quifufutila da avó, docinha…
-Bolas!, berrei-lhes. Não me perguntem mais por esse Sebastião: faz séculos que o espero aqui sentado, só cheirando e mascando rapé neste nevoeiro à-toa, e ele nem!
Claro que este nem, sabes bem, foi só para distrair aquela bicharada toda, mas todavia porém e contudo, continuarei aqui – adversativo demais, concordo! - esperançadamente adverbiado, esperando uma tua visita urgente!
Urgentemente!
Teu avô que te bisama,
J.B.M.

terça-feira, 17 de Março de 2009

Vinte e zinco de abril, aqui e além mar...

Quando chegou o vinte e cinco de abril em portugal, vinte e zinco no meu musseque Catambor - como diria o mano Mia - pensei mesmo que tinha chegado tudo que estava em falta para mim e minha pobre família. Então corri para a rua a gritar liberdade, liberdade!, mas ninguém mesmo me apoiava no grito.
Voltei para casa desanimado e perguntante para todos os adultos:
-Afinal..., finalmente não estamos livres de tudo isso aqui?
Que não! - Faltava ainda muito!, me disseram os cotas da família.
Desfaleci-me, sem todavia falecer: afinal tudo tinha sido só as propagandas ilusionistas, e eu, o precipitado...?
Dia seguinte, acordei com as pancadas do Milo na porta da janela pequenina do meu quarto, sussurrando acalmias para me desmorecer nos todos entusiasmos:
-Jon!, vem cá, acorda!, essa hora ainda não é a nossa hora...
-Pois não!, disse-lhe eu, nem nunca será, meu irmão! Deixa-me dormir...
Deixa-me dormir, por favor...
E Milo deixou.
E até hoje nem que consegui mesmo acordar daquele derrotado adormecer, por falta da hora chegante...
A hora precisa tem hora de chegar?

domingo, 15 de Março de 2009

Pescarias...

O mar estava tão turbulentoso, que até a canoa já nem queria ficar mais ali, bamboleando, só os aguentando a pescar salmonetes, roncadores e mariquitas, tamanhas eram as perigosidades ameaçando do horizonte .
-Melhor vamos voltar!, aconselhou João Bula, avisando...
-Só mais um!, pediu Ezequielzito, o verdadeiro alienado das pescarias e do pirão...
Quando se decidiram em concordância pelo mais um!, eis que uma gigantesca onda - sabe-se lá vinda desde onde - faz virar a canoa toda repentinamente, pescarias já conseguidas e tudo para as profunduras, impescáveis de novo.
-A culpa foi tua, Ezequiel!, seu filho de uma quitata! Agora vamos morrer aqui sozinhos por causa de mais um salmonete...
-Mantém uma calma, pá! -controlou Ezequiel. Segura só no casco do fundo da canoa, e não chora os roncadores e as mariquitas já todas pescadas! Que se fodam elas mais todos os pirões com elas!
E assim permaneceram horas e horas agarrados à canoa virada, trocando impropérios e enfrentando vagas e outras ondulações muito frias...
Caía já a noite quando um bote do Club Náutico os recolheu enregelados e meio adormecidos, em estado de pré-morte por congelamento, hipopótamotremia, ou coisa assim...segundo falaram os brancos de lá!
A partir desse dia, João Bula e Ezequielzito apenas aceitavam pescar só sentados numas latas de azeite de oliva de cinco litros marca Galo, mastigando cola e jinguba, porém suportando um problema: só caçavam aquela tuje de taínhas todas fedidas dos esgotos da baía, ali mesmo por baixo da fortaleza.
E assim foi que os pirões nunca mais caíram no osso a Ezequielzito...

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cair no osso - satisfazer totalmente

sábado, 14 de Março de 2009

Atómico Tom, o Toninho

Tudo o que era ser em mim - aquele ser que aprendi a ser com todos os passados já muito idos narrados pelos meus mais velhos - atomizou-se, quero dizer: se desmandiocou totalmente em areiasinhas muito pequenininhas, quase como aquele pó de fuba que foge da pancada do pilão com o vento, parecido com talco…
De forma que já nem jeito tenho mais de me resubstancializar de novo: de me voltar criatura feito rio, feito vento, arara, mandioqueira, montanha ou mesmo só umas tristes barrocas urbanas, agora com ribeiros de muitos mijos a atravessá-las, mussequentos, favelosos...
O que eu fui, e o que por vezes ainda penso que sou, já não existe, mamá: fragmentou-se até à possibilidade máxima dos átomos, e assim acabei reduzido no mínimo dessa máxima possibilidade atómica.
Sou, resumidamente, um preto contagiado de branco por todos os lados, menos por uns, e que já morreu faz muito tempo, mas ainda não estava sabedor.
- Ai malamba, mamá...!
Estou tão triste por ter morrido assim à-toa, com uma metamortífera bala na cabeça disparada por não sei quem nem quando, e logo logo mesmo antes de cumprir todos os afazeres que me foram transmitidos e ordenados…!
E agora tudo é só malamba da minha morte estúpida, destino roubado, vida descumprida. ..
Estou tão triste, mamá!, que até me apetece voltar encostado no corpo do meu irmão, teu-igual-filho Josué, antes que me aconteça como às estrelas, que morrem de vez mas pensam que não, e continuam teimosas a viajar nos céus e a cair nos mares, só para amedrontar os pescadores e confundir os astronautas…
-Seu Toninho está tão triste, mamá...!

Lua Nova...

Um dia, certo triste dia, coloquei aquela foto dela comigo numa linda moldura bem envidraçada, bem pertinho de mim para os bons-adormeceres, lá naquele nosso ex-quarto todo ele agora feito só escuridão iluminada por sol e lua e mais uns piriquitites das estrelas, tentembuatubiando. Porém tratei de a posicionar - devidamente - para que os raios que atravessavam a gelosia partida batessem mesmo no sorriso dela. E também nas suas muitas tranças maravilhosas. Só que, às vezes, dias de chuvadas quase muito tormentosas, nem mesmo pelos buraquinhos dos pregos no zinco do telhado entrava luz nenhuma, nem nada a não ser gota de água. Só pra chatear-me.
Adormeci assim um monte de noites, na miragem verdadeira dela ali iluminada pela lua grande, sorridente em sorrisos comigo, feliz nos seus panos coloridos de mulher-mãe-de-filho, não de quitata, como uns outros podiam pensar. E assim eram os meus serenos e maconhentos adormeceres depois que ela partiu para as lonjuras montanhosas, levando os seus todos haveres das suas vaidades todas…
Ontem, quando dei pela ausência dela ali, por falta dos raios vermelhos foguentos a lhe iluminar o rosto e as trançaslindas, apresentei as minhas queixas junto da esquadra de polícia:
Avisaram-me que ela já me houvera deixado, sozinho e todo mais que escurecido, há algumas luas atrás; e que ainda mais ela tinha deixado testamento de promessas, em juras com sangue de Cristo, que nunca viria me acompanhar nas noites de lua nova.
Por causa de quê e ordem de qual kimbanda?, quis saber.
Quem manda nas luas?
-Por ordem de deus, falou-me o polícia antipático, malamulatado…
Hi! Retirei dali todo derrotado.
… E foi assim que nunca mais nem quero ouvir falar o nome desse deus!
Juro mesmo! ... pelo sangue de Cristo!
Assim vos fala Simão Bula...
____________
tentembuatubiando - cintilando
kimbanda - feiticeiro
quitata - prostituta
maconhentos - ganzados; aliambados (de liamba:canabis sativa)

quinta-feira, 12 de Março de 2009

Refilmando o mesmo filme, em África

Por gosto e muita habituação dos tempos, eu sempre a tinha do meu lado: na fogueira, na sombra da mangueira, ao sol da praia e à noite na esteira nossa cama; para já nem falar de todos os momentos da vida e das sozinhas tormentas dela. Por isso estranhei muito quando a levaram de mim com ordens e falas de doenças muito maléficas para toda a aldeia.
Mais tarde, me falaram todos os desremediáveis assuntos: minha mulher tinha morrido de vez, definitivamente, e ainda por cima deveria de ser toda queimada, por conta das doenças muito contagiantes não se contagiarem em demasia.
E então logo depois me devolveram a mãe dos meus filhos toda ela em pó, como se fosse até só fuba ou quifufutila, dentro de um tubo de metal que mais parecia nem sei o quê.
-Cremamos tudo!, me avisaram nesse dia os cangalheiros brancos, todos vestidos de preto.
Tempos mais tarde, depois de muita coloquiagem com os nossos filhos todos, decidi mudar a falecida-em-pó para um frasco de vidro, transparentíssimo, com a ideia de a levar comigo junto com os aparatos dos pensamentos e das pescas para bem longe daquela praia, longe daquela costa desumana, e depois a mergulhar - bem lá nas funduras escuras – para que ela pudesse contemplar as maravilhas das secretas profundezas do mar: lá onde habitam os imortais nossos parentes que desistiram das guerras e das invejas deste mundo.
E embarcamos juntos, eu e a falecida-em-pó, na canoa de todos os nossos descontentamentos rumo ao mar alto, ondulento.
Aí chegados, lancei à água o vidro com ela, preso por uma muito fina cordinha. E depois esperei, esperei, esperei…para deixar ela ver tudinho que havia para ver.
Adormeci nesse esperar, imagino agora, porque na hora de a puxar, ela não quis mais vir, e não veio. Mesmo!
E até hoje eu sempre penso que ela encontrou um marido mais bonito que eu, mais marido dela, menos pensadorento e mais vivente nas alegrias:
Menos eu mesmo, Jonas Ndengue...
Aiué!, malamba!

terça-feira, 10 de Março de 2009

Primeira vez, no Word


Documento em branco…
-Documento?
-Em branco?
Mandaram-me para aqui: vim.
Impuseram-me a cor: colori.
E depois?, perguntei…
Depois tudo, ou nada, a vontade de desnadar ou entudar seria responsabilidade minha. Me disseram.
Então optei pelo tudo, pobre que sou com nada a perder.
E assim começa meu gratuito relato:
Mariazinha, a puríssima, se apaixonou por mim…
Mim, pouco ou nada apaixonado por Mariazinha, fez de conta que não deu por nada. Aí Mariazinha começou a dar por tudo, me azucrinando:
-Nem reparou no meu cabelo, cabeçudo?
-Nem reparei!, respondi-lhe sem cabeça.
-Pior para você, descabeçado!
-Pois…
E a vida fluía assim, fluida, tranquila, em díspares cabeçadas …
Até que…
Até que chegou no lugar uma grande cheia do rio.
E aí o rio perguntou para as gentes:
-Querem continuar na mesma palhaçada?
-Não queremos! - responderam os quase náufragos…
Passava voando um enorme negro pássaro quando as coisas todas se impuseram assim.
Agoiro mau, pressentiu-se…
Mas nada se passou.
Dessa vez!
Documento em branco…

Errâncias...

Erra-se à toa, já se sabe, mas normalmente erramos por duas de muitas razões: por compaixão e por verdade. Assim estipulo porque para mim, em mim, a compaixão é a minha mais autêntica verdade; não consigo disjuntar a coisa. E mais peço desculpa por existir, mas assim é. Necessariamente.
E por falar nisto, uma vez, usando eu este termo - necessariamente - com a maior das levezas, um professor interrogou-me se eu sabia o que estava a afirmar. Encaralhei-me, claro!, pois não dispus da resposta pronta para lhe devolver a enxovalhante pergunta. E aí ele esclareceu:
Necessidade, meu filho, em conhecimento e ciência, quer dizer que as coisas são assim, deste ou daquele jeito, porque não existe outra forma de serem.
-Foda-se!, disparei à queima-roupa. E eu que nunca pensei nessa simplicidade?
-Pois é, meu filho! - disse o professor velho finalizando o enxovalho.
Acordei deste pesadelo já em alto mar, rumando ao outro lado das vidas de cá e ciente de que nunca devo afirmar nada, como verdade, que disponha de uma outra possibilidade de ser...
Europeu é complicado...

segunda-feira, 9 de Março de 2009

Babyliss...

Era a recepção aos caloiros do liceu. Os cheiros no ar contrastavam cabelo recem-rapado, tesouras e colheres de pau - normal maugosto destas alegorias - com o perfume das acácias e o cheirinho a lavado das alvibranquíssimas batas das meninas. Porém, qual cão farejadorento, um perfume diferente inquietava Chico Wonder, que não parava de desimpinocar o nariz. Aquilo era-lhe cheiro de feitiço, tremisto de queimada na selva, frutos exóticos e cagadas de passarinho, já muito ressequidas e cacimbadas.
De repente, Chico Wonder repara nos olhos negros que se cravavam nos dele e sofre um baque estupidocárdico: tal beleza nunca houvera contemplado! É que para além dos finos traços do rosto e do finíssimo chocolate da pele - onde se demasiavam imponentes ombros de cetim -, derramavam-se longos e sedosos cabelos, em perfeita geometria por todas as outras soberaníssimas belezas: estava perante uma encarnação da rainha Nzinga! Só podia.
Aprochegou-se, medroso, enfeitiçado: era dela que exalavam tais odores e feitiços, afinal.
Apaixonou-se logo ali, no primeiro sorriso com que foi brindado.
No dia seguinte, totalmente embeiçado e já de mãos dadas pela rampa do liceu abaixo, quis-lhe saber dos estranhos perfumes e das geométricas lisuras do cabelo:
-É do babyliss, seu matumbo!, esclareceu-lhe a rainha.
E assim se iniciou o desencanto de Chico Wonder.
Mais tarde, já desembeiçado, contou-me do asco que já sentia por aquele fedorento odor a babyliss...

... Mas demos-lhes uma pisa! (1)

Foi no liceu, naquela borla por falta da professora de matemática, durante mais um trumuno que se ia realizar entre a malta da turma Jota. Separados em duas equipas pelo escaganifobético método tradicional 'Lá-em-cima-do-piano-está-um-copo-com-veneno,quem-bebeu-morreu!, calhou de minha equipa se formar com os mais habilidosos dribladores de toda a Luanda e arredores: Tarzan Saturnino, Milo China, Jorge Airosa, Domingos Inglês, Cardoso Cambuta, Jonas Bonfim e eu próprio; Jonlima, como me chamavam ali e nos arredores das famas.
Esta nossa selecção era tão chocantemente ofensiva que até prescindíamos de guarda-redes. Na defesa, Jonas Bonfim e Cardoso Cambuta eram uma muralha intransponível.
E começa o trumuno, com a assistência em ruidosos entusiasmos.
Quimbiambias por aqui e por ali, e os Uás! em uníssono a cada finta; e logo logo de imediato: um-zero, dois-zero, cinco-zero...seis-a-berro!
-Alto!, pára o jogo!, sentenciou o dono da bola - guarda redes da outra equipa - segurando a dita escusada debaixo do braço:
-Sem sapato não vale!
Aí, cabisabaixadíssimos, vergonha a queimar na cara mais que o sol, meus companheiros angolanos deram o jogo por terminado: chegar a casa com sintomas de trumuno nos sapatos-de-ir-para-o-liceu era arriscadíssimo risco que se tinha que desarriscar!
Foi a primeira vez que chorei no liceu...
Também, a bem dizer, foi a primeira vez que eu me senti preto e pobre, no descalço do meu pé direito...

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(1) Pisa-cabazada, goleada.

Quimbiambia, literalmente significa borboleta, mas no nosso futebol queria dizer finta, drible espalhafatoso.

Trumuno: jogo de futebol

roubaram a chuva...

Na semana passada, alguns lavradores africanos da Zambézia, Moçambique, foram acusados pelos seus vizinhos de esconder a chuva em suas casas, privando dela todos as outras machambas.
A vizinhança, esfomeada e com as hortas ressequidas, invadiu-lhes as palhotas, aos tiros e catanadas, como castigo por tamanho roubo.
A polícia, deslocada para o local, bem se empenhou em os convencer que a chuva não se pode roubar, nem esconder em casa...
Mas não valeu de nada: a matança continuou.
E o objecto do roubo continua desaparecido.
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ps: este facto é verídico, e foi relatado pelo jornal 'Domingo', de Maputo.

domingo, 8 de Março de 2009

Milagres...

-Dançamos?
Saltou da cadeira como explodida, dirigindo-se para a pista perante todos os assombros da família em sua mesa.
Agarrei-a pela cintura - ai a cintura dela! - e aconcheguei-a ao peito também já todo em tremendos telúricos abalos:
-Como te chamas, meu amor?
-Chamo-me Milagre, Maria dos Milagres.
-Oh!, e eu que me chamo Manuel dos Possíveis ?
-É? Mas eu só vendo, Manuel...
-E eu só experimentando, Milagre.
-Já agora - sussurou-me ao ouvido - de onde te vem esse Possível, Manuel?
-Da vida, Maria! Da vida, possivelmente de algum ancestral Impossível, não sei.
-Quer isso dizer que te candidatas, com poucas possibilidades, ao milagre?
-Quer isso dizer, mesmo!, Milagre meu!

Um desconto

Era uma vez... - hum!, seria? - um branco e um preto.
O branco - abusado que chega! - ousou perguntar ao preto - retraído bastante! - qual era a sua preferência em matéria de mulher: branca, preta, mulata, albina ou sabe-se lá...?
O preto, retraído bastante, respondeu-lhe que seu assunto só se assuntava com as mulheres pretas, da sua cor. E muito maduras.
Aí o branco, abusado que chega, riu! E escarrodisse:
-Porra!, eu cá gosto delas pretinhas, novinhas!
-Está bem, patrão!, mas meu amigo Zacarias, que também tinha as mesmas contranaturais tendências que você, foi assassinado na semana passada pelo patrão dele, pai de uma branquinha, novinha em folha...

sábado, 7 de Março de 2009

Boxeando...

Hoje, os meus falsos apetites almoçaram-se na taberna de raro costume: raro porque só se me achega aquando dos jogos do Manchester. Do Manchester e de mais nenhum: essa é a excepção que faz a minha regra naquele tabernar de inventados apetites.
O jogo estava marcado para as cinco, cheguei nas quatro mas ainda bem a tempo de assistir a uns Boxings, finais dos pesos pesados, dos pesos leves, dos pesos plumas.
A toalha da mesa, luxo nestas paragens, era de papel, pragmatia para mim: podia escrevinhinhar a brancura enquanto…
Enquanto a cabeça me foge, viajando, como sempre…
Dividi então, classificadamente, a toalha em três partes segundo as categorias do Boxing, e comecei a anotar as palavras que me vinham à carola e se encaixavam nas diferentes classes, seguindo um critério de sonoridade (musical ou ruídal), digamos assim.
E logo me apareceu um rol de exemplos pesados, um rol de leves e um outro de plumas. Acabado o almoço tardio e rasgadas as partes toalhísticas, eis o que me sobrou para vos dar:

Palavras Pesadas:
Truculento, sorumbático, meditabundo, brutamontes, borrabotas, espadaúdo, azedume, carrancudo, trambolho, dentadura, cavalgadura, paquiderme, trombudo, acabrunhado, escombro, canhestro, pindérico…

Palavras leves:

Vinho, penalty, golo, vitória, sorriso, sobremesa, carajillo, café, conta, favor, obrigado…

Palavras plumas:
Café, whisky, whisky, café, whisky, gorjeta, casa, cama, sono, casa, cama, sonho, meditabundo, azedume, sonho, mijo, mijo…

E foi mais ou menos assim a minha última vitória com o Manchester, inspirada naquela assistência de borracholas!
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Ps: xoda-se!, não rasgo mais toalhas…

sexta-feira, 6 de Março de 2009

Fiz cagada...

Com os muito devidos pedidos de desculpa a Sun Iou Miou, Fonseca Lima, Condado e Cassamia, que já haviam comentado o meus 'pozinhos de sulfamida'-aqui publicados indevidamente durante umas horas - fui obrigado a retirar o dito cujo porque o lugar dele não era aqui, nem para ser. Aquilo são coisas doutro blog, meu diário de bordo...
Mil desculpas a todos vós.
ps:(Estes sentidos, que normalmente nos permitem as melhores atenções e cautelas, começam-se a rebelar dentro de mim, apelando para maiores liberdades de fazerem cagadas como esta.)

quarta-feira, 4 de Março de 2009

Tchi!, ganhei uma biblioteca...

Para já foi a biblioteca, amanhã quem sabe o que poderei ganhar:
Escasseando-me a disponibilidade para comprar livros este mês, fui às apalpadelas ver se encontrava lá nas poeiras de cima algo que ainda precisasse de ser lido, ou pelo menos merecesse releitura. Então meus dedos levaram-me até um nobelizado de quem já nem lembrava o nome. E mal abro o utensílio, minha assinatura - reforçada com data - atestava que eu já tinha lido a trapalhada fazia já uns anos poucos. E recomecei a ler: nada, de nadica de nada eu me lembrava mesmo. Pego noutro, a mesma assinatura, data e ainda outros sinais da minha passagem também lá estavam. E recomeço a ler: nada, sequer a mais mínima lembrança de qualquer detalhe se tinha ficado. A carola começou a ficar-me preocupante inutensílio e até um incomodatício medo me assaltava já os fundilhos.
Recostei-me, respirei fundo, engoli dois tragões de conhaque em fogo e berrei a sete fôlegos:
-Porra!, estou com Alzheimer!
Assustado com o meu grito acorre meu neto, todo fardado de tranquilidade azul desde os olhos, e já também com aquelas falinhas-mansas-para-adormecer-avô:
-Que te aconteceu, velhinho?
Expliquei-lhe o susto, em bafos etílicos.
-Que bom, avô! - concluiu - Ganhaste uma biblioteca nova sem gastar mais um tostão!
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ps: estou trocando um neto por um pouco de memória. Alguém está interessado?

Respigando, por aqui e por além...

Sem citar as mui conceituadas autorias - pecado pouco capital - vou deambular, com vossas licenças e paciências, por temas relacionados com os olhos, os ouvidos, os tactos e demais palpações, coisas abordadas nos blogs amigos de forma mui rendilhada, bordada artesanalisticamente, pois então. Porque meus amigos blogueiros são artesãos: ai que não fossem...
Disse um: não consigo entender sem ver!
Indagava outro: Como dizer a lua sem a tocar?
Atravesso eu: Como fazer isto tudo com olhos, ouvidos e dedos, mas sem mioleira?
-Não pode!, said the joker!
-Não pode!, corroboro eu, maneta de nascença, e cego, surdo e mudo por aquisição de mais habilitações.
Morreu-se-me o cérebro agente era eu adolescente, todavia quedaram-se-me os olhos para me orientar nos caminhos urgentes: supermercado, cozinha, lavabos e cagavabos; nada mais que as antenas de certos moluscos, afinal. Quedaram-se-me também os ouvidos, para ouvir todas as verdades e mentiras via oral, via rádio, televisão, telemóvel e internet. Só que faltavam-me os miolos para sintetizar arrumadamente toda essa informação. E foi o caos. É o caos em meu conhecimento, que não dispara para conhecer.
Meu Boris ladra às gaivotas, às rolas, à trovoada, e ladra também à lua quando esta se enche toda de manias e feitios. Eu, que o ouço naqueles ladrares todos, fico estranho, interrogando-me também porque não vitupero como ele a tais intrusos das tranquilidades naturais.
Mas a verdade é que meu Boris fala de/para a lua quando lhe ladra. É nesta evidência que eu queria que todos nos detivessemos: falar da lua não é sentir a lua, Monsieur de La Palisse! - como citaria o Tá-se bem, que agora fala francês. Beijar uma criança não é gostar dessa criança, mas sim gostar de dar beijos naquela criança, de forma egoísta, goste ou não a criança de tal beijoquice.
Essa da necessidade do tocar para conhecer, ou para disfrutar de algum prazer no dedos ou nos olhos, é coisa arrumada pelo zen-budismo, (consultai D.T. Suzuki), é mania possessiva do Ocidente, lambuzice, é nosso ser lateiro, como se dizia na tropa e em outras misérias esfomeadas perante a abastança.
Não!, para falar da lua basta-nos ser cão, no mínimo.
Para falar da lua com palavras de sentir, ou para tocar o corpo desejado com tesão de fruir, só com miolos, bons miolos.
Desculpem lá, mas para mim é assim...
Pelo menos enquanto me mantiver cego, surdo, mudo e maneta.
-Tenho outro remédio?
_______
ps: esta merda deve estar pejada de contradições, mas que se lixe!, apenas estava tomando o meu 'carajillo' quando me puseram estas questões...
As conversas de café costumam ser assim, e nunca ninguém se zanga...

terça-feira, 3 de Março de 2009

Agrediram a badalhoca, no Tribunal

Badalhoca - mulher muito suja e reles; ex-mulher muito limpa e digna, enquando... pois!
Escritora - profissão preferida pelas putas cá do burgo, após ultrapassarem as fases alternista, primeira-dama e badalhoca.
Cara-de-pau - ministro corrupto que afirma com arrogância que se candidata apenas para manter a decência democrática.
Decência democrática - situação definida pelo maior grau de corrupção dos magistrados, dos supervisores bancários, dos políticos e seus apaniguados; Indecência total.
País democrático - território repleto de idiotas que se levantam da cama ou da praia para irem votar nos caras-de-pau que irão garantir e manter a total decência democrática.
...
Estava eu laboriosamente construindo um glossário para vos juntar ao post que ia escrevinhar, quando - nem sei por que puta razão - me deu cá uma volta nas tripas que até já nem me apetece mexer mais nesta bosta...
Mas que foram estes os assuntos de hoje neste paíseco democrático, isso eu garanto-vos.

segunda-feira, 2 de Março de 2009

Mataram o Me...nino!

Pena mesmo é eles serem tantíssimos, pois que se não fossem, até que hoje era dia de festas e não de medos, como se vê. Bué de alegorias saíriam pelas ruas anunciando esperanças novas e outras, naquelas terras já muito pisadas. Mas assim sendo, o medo ficará retido em casa, nas palhotas, lançando búzios, aspirando muito cheirosos fumos e delicadíssimos vapores, a ver se...
A ver se chove, como nunca.
-Liberdade chove?
É que ainda restam vinte e tantos outros generais, da mesma estirpe e tal e quais o não dito cujo, sátrapa assassino assassinado hoje por mando dos narcotraficantes...e de outros etcétera e tais.
-Mas deus não cansa de ser ingrato? Hum?
...
( ... já estavas mesmo a demorar, pá!)
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PS: Mas um país com um milhão e meio de habitantes precisa de vinte generais?
- Precisa!, há que destribuir o dinheiro que os burros da UE mandam pelo maior número possível de sevandijas... a fim de se garantir a democraticidade da jogada.

Avôzivamente...

O avô é o futuro, eu não sabia. Tudo - afinal! - depende da fantasia. E das maresias...
Lembro meu pai, avô de muitos netos, homem enorme, mas dotado de poucas fantasias. É que as suas maresias sempre lhe traziam amargosas azias, em várias línguas e em continentes diversos. No Brasil lhe apimentaram o pai com uma mulata, senhora de todos os dotes menos um, desquiabando-se assim sua mãe que, sem mais quês nem desquês o regressou à terra dela, mudando-lhe a graça, como se assim se vingasse do pai; em Portugal, fecharam-lhe a tenda por paradoxais motivos mundiais da guerra, lhe esclareceram enquanto lhe avinagravam o vinho; em Angola, impura e complicadamente o desmarcaram dos demais por indemasia de cor: Branco, não!, avisaram-no os camaradas, novinhos em folha.
Por isso tudo, as pimentas, os quiabos, a tenda, o vinagre do vinho e a cor-não atraíram maresias muito péssimas na sua vida. E lá se foram as fantasias.
E os netos em carência de avô.
Quando a morte lhe chegou para os ajustes, até que nem avô já era. Levou-o assim mesmo sossegadinho, inimputavelmente sereno e sozinho.
Agora, os tempos que sobram para mim consequentaram-se, e tenho de ser o avô; tenho - por isso - de providenciar as fantasias, controlar as maresias também.
Agora terei de encarnar a vingança daquelas pimentas brasis, daqueles acres vinagres da vida do meu velho. Agora terei de ser o rectificador de todas as tintas que por este mundo classipintam as pessoas em raças, sarapintando-as, com ou sem pintas.
- Sardento é branco?
E assim me vejo como o futuro longinquíssimo do meu neto. É certo que estou na frente da fila para embarcar no desregresso, mas até lá serei o mais-velho da família, o mais etérnico: para os intratáveis e devidos assuntos com a eternidade...
-Agora eu sou o avô!

domingo, 1 de Março de 2009

O apagão

Quando liguei a TV e se me ocasionou o congresso do PS, senti-me retornado ao meu cemitério despreferido, lá onde família nenhuma me sepultou. Tudo era só fantasmagóricas criaturas, putrefactos seres conhecidos há séculos em todo o país. E até quando falavam, aquelas suas falas já vinham também apodrecidas por verdades muitíssimo acarneiradas, putrefactovinas.
Ali não tinha festa nem crítica, tampouco debate de coisa nenhuma: o país já tinha acabado fazia muitíssimo tempo, precisamente o tempo que se fazia com eles, mas que até nem queriam crer.
Então esses mortos - agora falsos sobreviventes - se iam bastando só no malhar nos outros falsos sobrevivos, apelidando-os de todos os nomes, menos os próprios dos bons-rapazes.
Por sua vez estes viventes - quais candeias alumiando caminhos já percorridos e falhados noutros tempos e paragens - juntaram-se e jantaram-se noutro pequeno restaumitério de Lisboa, para agradecer os ditos cujos funestos favores eleitorais, comemorativa e antecipadamente.
- Mas morto patrocina moribundo?
Repletamente enojado, desliguei o aparelhómetro. Não a TV, mas o que lhes possibilitava a energia eléctrica àquele halloween.
Bastava de congresso, pópilas!
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p.s.: Mas porque razão me incumbem sempre deste tipo de serviços?

sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Uma nenhuma vez... (só um flashesinho...)

Minha vida mais se resume a uma estorinha que começa por Era uma nenhuma vez... (1)
E em todas essas desvezes, nunquinha me senti tranquilo; nem mesmo quando sorria à-toa. As meninas achavam-me graças e piadas, os professores me castigavam porque sim; a família ignorava-me e até os amigos me invejavam nada, que era o que eu realmente tinha para eles invejar.
Cresci assim sorumbático, zonzando pelo mundo adulto sem atinar nem com nadica de nada. E distracção para aqui desatenção para acolá, acordei fardado de soldado colonial, cheio de botas pesadas e metralhadoras ligeiras.
Nos exercícios militares saltava mais longe que todos, sequenciava os tiroteios a um ritmo vertiginoso acertando bué nos alvos, mesmo nos que se mexiam à-toa; trepava nas cordas feito macaco e até rastejava que nem jibóia, em movimentos de grandes intimidades com o chão e a metralha. Tudo isso para grande admiração de todos, menos para minha, bicho-dos-matos de nascimento. E de crescimento, a bem dizer. Só que...
Só que lá veio mais uma outra nenhuma vez: a soldadagem me apelidou de turra! E tal-e-que-tal se encheram de razões e suspeitas, que vindo de África e com tal preparação militar tinha de ser terrorista. Fui levado aos comandantes todos, interrogado por dentro e por fora, inspecionado nas glandes até: Nada!, concluiram os comandos, o mancebo não tinha sinais tribais no corpo e não estava circuncisado. Devolveram-me à caserna e à soldadagem colega. Na manhã seguinte verifiquei que me tinham roubado a farda e as botas.
-Foram os borrabotas!, gritei.
A caserna esvaziou-se na hora - coisa combinada -, e eu não tive outro remédio senão manter-me deitado, impotentemente empijamado. Readormeci, ou readormeceu-me a raiva, não sei.
Quando reacordei, nem tempo de acordar mais tendo, passei directamente para o readormecimento com um pontapé na cabeça, desferido por um monstro camuflado aos berros de Já para a parada, seu filho da puta terrorista.
Passaram os tempos e continuo sem saber se já acordei daquele coma. Talvez não, pois continuo a ter sonhos onde sempre abato muitos soldados coloniais com tiros certeiríssimos, onde incendeio matas para os cercar com fogo e feras muito ferozes, onde lhes arrebento com granadinhas os paióis, ainda com alguns lá dentro; onde lhes mastigo os fígados e os tomates assados em festas de camaradagem negra e selvagem, a ver se assim aprendem.
Agora berro eu:
-A ver se aprendem, seus-filhos-da-putaaa!
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(1) esta expressão, sim, é quase plagiada, porque quase me lembro de a ter já lido algures em Mia Couto.

sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Cartas a Johnny-boy (1)

Johnny Boy, ndenguiami

Não queria te falar assim - com os despropósitos da vida de agora - dos propósitos que deverão ser os teus nas temporalidades que te hão de dar mais ser. Porém, manda a tradição da nossa gente que te fale as falas que têm de se falar para os bons pensamentos futuros, para que assim nos perpetuemos não só nas falas mas também nas obrigações familiares, no respeito das tradições dos nossos mais-velhos.
Nasceste e ainda nem te apresentei à lua, nem ao mar, ao rio e nem sequer mesmo a todas as montanhas secretas destas frias cordilheiras do mundo branco. Nasceste e eu nem.
Teus antepassados, se soubessem de tal minha falta, nem mesmo me iriam perdoar nunca; mas eu não falei nada para eles. Ainda.
Temos de cumprir, urgentemente, todos os cumprimentos: ficas assim branquinho e tranquilo enquanto eu me empreto nos teus azuis olhos fazendo-os crer-te preto também. Talvez passes esse primeiro teste, talvez nunca os convenças: branco é branco! E tu terás de ser apenas tu, sozinho.
Mas já pensei tudinho: vou-te levar numa longa viagem até junto do embondeiro, fazer-te provar a múcua e depois rasgar um golpe bem fundo na árvore, colocar nele o teu kinjanguinho, durante horas...
E nos finalmente dessas horas todas, quando o tirares para fora, todas as mulheres de África e arredores poderão ver, em espantos e desmaios, com quantos paus se faz uma canoa...
Assim to prometo, Johnny-Boy.
...
E agora vou dormir o sonho dessa nossa viagem...
Amanhã mais te falarei...

Conversemos...

Imagina um amigo, um qualquer sujeito, um pobre gajo que te apresenta - num dianão ou numa noite de copos - a sua caótica situação existencial como insuperável, desenrodilhável; que te fala de uma crise muito crítica, duma definitiva desistência, duma desvontade de viver, finar-se...
E tu ouve-lo, civicamente. Eventualmente bêbado também.
Mas tu, amigo de teu amigo que sempre foste, feito homem que é homem que sempre arrogaste, inchado de humanidades e outras tretas mais, que poderás dizer, sugerir, palpitar, discretear numa situação dessas?
-Nada!
Não tem remédio no mundo para a falta de remédio de muita gente, amigos que sejam.
Garanto.
E tanto que garanto, que - muitas vezes - até sou eu mesmo que estou no lugar desse amigo, desse sujeito, desse gajo: irremediavelmente sem remédio!
Pues, así es señor!

quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

futurando...

Através de algumas leituras que faço durante os sonhos, fiquei sabedor que existem animais que se alimentam apenas da escuridão, tal como os paineis solares se alimentam da claridade. Cai a noite, e a bicharada já sabe: é a hora da janta. E nem precisam mastigar: o cacimbo (ou o orvalho) entranha-se na pele e lá arranja maneira de atingir os canais digestivos. Claro que pela manhã é um gosto apreciarmos esses animais a defecarem estrelitas, pedacitos de nebulosas, alguns rastitos de cometas e ainda outras poeiras siderais, nas diarreias; mas isso já é outra parte do filme.
Ora bem, sustentando eu um enorme canino e estando o mundo em crise, não seria de bom tom eu pensar num implante de uma pele de um desses batráquios, precisamente por cima do estômago do Boris, a ver se a coisa resultava com ele?
... E quem sabe também depois comigo?

quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

Sem afecto e sem açucar

Sem afectos, todos os lugares aparentemente maravilhosos do mundo, são apenas geografia;
Sem uma loucurinha saudável e doce que nos abra o sorriso dos olhos, a normal saúde torna-se insuportável doença;
Sem uma droguita que nos empurre, a vida é uma droga, sendo que com drogas é um pesadelo.
Mas o pior de tudo, de tudinho mesmo, é que sem amor aquela minha namorada vira carniçaria!
E ela é tão bonita, tão geográfica, tão saudavelmente sã, tão careta...!
Mas que lhe adianta matar-me a fome se me condena numa insaciável sede?

segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Esse é o cara!

Johnny-boy sacudiu os cabelaços da sua enorme franja e sentenciou:
-Avô, não volto mais para este jardim!
E porque assim decidia, quis saber eu. Porque sim, disse ele. E tem demasia de putas por estas bandas, muitos toxicoindependentes moedinhas a espirrar restos de coca por todos os cantos e, ademais, até cheira a mijo que tresanda.
-Meu filho, este é o local de trabalho de seu avô!
-Pois bem, determinou, amanhã vais para o desemprego.
-E que faço a tanto stock lá em casa, quis saber eu.
-Dá-mo: eu fumo-o, eu cheiro-o,...ou dou-o ao meu pai!
Coitado, tão jovem e já sem noção nenhuma da dureza da vida!

diálogos com o dealerzinho baiano

-Gostou da minha maconha, portuga?
-Gostei nada! Erva boa para mim tem de fazer cuspir sangue! E a sua nem para espirrar serviu.
-Tá louco, velho?
-Éeee! Mulher tem que me fazer chorar, álcool tem de me fazer correr, beleza tem que me fazer fugir, e, claro!, maconha tem que me fazer cuspir sangue! Não lhe faz sentido, moleque?
-Faz não, portuga. Você já era, meu! Ninguém o avisou não?
-Passa aí mais uma charutaço e cala a boca, seu abusado! Você não sabe que eu cuspo sangue da cabeça, seu maldesparido?

domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Quanto mais cresço, mais emburreço...

Quando era jovem e anunciei que iria casar com o amor da minha vida, logo acorreram os amigos a ridicularizar-me o acto: casar?, para quê?, não te basta viver com ela? Para que tanta caretice, tanta cedência a esse ignóbil aparelhozinho ideológico do Estado? (1)
Que sim, tinham razão, mas que eu e ela também tinhamos as nossas razões, que porventura talvez até fossem nenhumas, ou pequeninas razões somente para não provocar desconforto a um casal maravilhoso de sogros. Não me lembro. Eram razões, talvez em parte razões de outros mas que nós assumimos responsavelmente também como nossas, e isso nos bastava.
Hoje, estupefacto, verifico que a comunidade gay está absolutamente assanhada para casar, nesta caretice envolvendo o seu maior lobby, o político. E não há um só intelectual da banda deles que venha a público chamar careta a tal pretensão!
Será que os tempos mudaram assim tanto, ou eu nunca atinei com esta civilização?
Os críticos que se lhes opõem imaginam interesses futuros na adopção de crianças, chorudos benefícios fiscais e outros pseudo-argumentos envolvendo os mitos liberdade e democracia, mas eu estou mais apreensivo porque penso que tudo é um embuste. E talvez ainda maior que a própria instituição casamento.
Que estranhos e hediondos propósitos se esconderão por trás deste tantoquerer?
A comunidade gay até tem um percentual relativo de intelectualização superior aos demais, logo não será por falta de lucidez nem por estultícia que tanto se assanham nessa fúria reinvindicativa. Ou o amor - afinal como pensavam os verdadeiros caretas do meu tempo - só é amor quando selado nos papeis e nas leis?
Não, a marosca deve ser outra.
Estou emburrecido, à espera de saber.
(1) Louis Althusser

Tristezas domingueiras...

Com o meu regresso ao banco de jardim, regressaram também comigo outros incómodos, como aquele da fome, aquele do frio, aquele da solidão, e dou comigo a cismar porque cada vez há mais gente que fundamenta o seu bem-estar à custa do mal-estar dos outros.
Não trevirei revolucionário outra vez, não!, estou ultrapassado e velho e qualquer coisa que balbucie em tom de seriedade pode ser confundida com charlatanice, mas o facto de muita gente tratar a fome alheia como apenas um ligeiro desconforto do estômago - sem pensar na humilhação que é sujeitar-se um outro ser humano a tamanha desgraça -, dá comigo em louco.
É este desprezo pela dignidade humana que ainda me vem por aqui assaltar, nos caloresinhos das tardes e nos gelos das noites.
Evidentemente que há coisas no mundo que já nem sentido faz falar delas, tantos remédios paliativos lhes foram inventados para sempre tudo ficar na mesma. E repetir-se em eternidade, o que ainda é mais trágico. Mas ele há coisas, certas coisas como estas escandaleiras dos políticos e dos banqueiros, que podem transformar qualquer um de nós em violentos assassinos.
E eu aí já nem quero estar cá para ver...

sábado, 21 de Fevereiro de 2009

Helpless...

Deus é grande, diz o 'tá-se bem'.
Pobre não tem deus, digo eu.
Pobre nem anjo tem, diz o outro. E quando o tem, é o da desguarda. Pois, cá nos quedamos resabendo.
Voltei com pena de mais ninguém que não de mim. Sem remorsos nem tremoços, desarrependido totalmente e muito, exactativamente como quem interroga:
- Solidão tem remédio?
- Tem não!
(said the sad joker!)

quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Desingressando

Desingressado durante seis muito brevíssimos meses, eis-me de retorno. Talqualmente o eterno que se fez de mito, saí como tio e regresso como avô. Nada grave.
Porém contente.
_________________
ps- para a próxima semana já começarei a levar o netinho para o jardim da Cordoaria. A ver se ele aprende desde cedinho como a vida é dura.

sábado, 2 de Agosto de 2008

Foi hoje...

Desbloguei-me!

quinta-feira, 31 de Julho de 2008

férias...


Mas, afinal, quando é que vamos de férias?
Nunca?

quarta-feira, 30 de Julho de 2008

nojo

Hoje não conseguia adormecer, por ter o estômago cheio.
Depois lembrei-me que existem milhões de seres que também não conseguem adormecer, mas por terem o estômago vazio. E esse mesmo inferno durante meses, anos, uma vida inteira.
Senti-me um nojo...
Que outra coisa me poderia sentir?

A orfandande é para sempre

Já comi vidros, reduzindo-os a papas.
Já comi papas, reduzindo-as a vidros. Dentro de mim já fiz alguns milagres, alguns crimes e algumas avarias. Mas resisti.
Vi a erva a crescer, a lua a tornar-se quadrada, a noite a ficar verde...
Sonhei sonhos de nunca ser, sonhos de envergonhar.
Acordei muitas manhãs frágil, amedrontado, envergonhado e sem saber como tinha sido possível aquele acordar.
Hoje, sobrevivente, só me recordo de uma gaveta vazia de um armário que em tempos tive, e que, por incrível que pareça, continua vazia.
-Oh mães, precisamos tanto de vós!

pária, eu!

Queria tanto pertencer a um lugar, a uma terra, a uma pátria, a um povo.
Queria tanto existir na simplicidade existente de todos os meus contemporâneos, partilhar do seu orgulho de pertencer a um lugar, a uma terra, a uma pátria, a um povo.
Queria tanto!
Queria tanto sentir-me irmão fraterno, pressuroso pai, amante fiel, camarada, amigo, essas coisas...
Queria tanto fazer parte dessa vossa parte tão comum e simples de existir e de ser.
Queria tanto!
E assim se me vai a vida toda nesse tanto querer.
(E eu sem arranjar jeito de deixar de querer esse tanto!)

Que é que tem...?

Que tem ser sozinho, ser ninguém ou apenas nem nisso pensar?
Que tem ser triste quando a tristeza é o que nos resta de um sonho, distante e velho, de uma alegria que já nem sentido faz existir em dias de hoje ?
Que tem ser velho se nem já sabemos como seria ser, outra vez, jovem?
Que tem não querer existir na existência dos outros que pensam que vão existindo?
Que tem?
Que tem se ao sistemático desistir nosso chamamos tranquilidade?
Que tem se fazemos de todos os nossos nãos, sins nossos?
Que tem?

totozices...

Estamos na silly season, avisam-me mentes atentas.
Só agora é que estamos? - pergunto eu.
Sempre estivemos, ó insanes!
Pelo menos e que eu me lembre, desde 1640 que assim estamos. Weak-minded, totós...!

terça-feira, 29 de Julho de 2008

a minha ilusão atómica, já era...

Tudo o que era em mim, atomizou-se. De forma que já não tenho jeito de me recondensar de novo. O que eu fui, e o que por vezes ainda penso que sou, já não existe. Fragmentou-se até à possibilidade máxima do átomo, e assim acabei reduzido no mínimo dessa máxima possibilidade atómica. Sou - resumidamente - um gajo que já morreu há muito tempo, mas a quem só agora lhe conferiram a possibilidade de uma certidão de morte.
Estou triste, pois claro.
Embora morto, estou triste.
Estou como as estrelas que por vezes se extinguem em luz no presente dos nossos olhos, mas que todavia já morreram há séculos, muito para lá do nosso passado.
Estou muito triste, porra!

segunda-feira, 28 de Julho de 2008

crossroads...

Não consigo imaginar como há gente que não aproveita a vida no que a vida tem de borla para ser bem fruída. Pela música, por exemplo. E já não digo apenas o deleite com a harmonia dos sons jogando com um eventual desejo de paz da mente, mas sobretudo os filmes que se realizam enquanto a música nos toca lá dentro, levando-nos para tão longe, para tão fora do cinzento quotidiano que reina dentro de nós.
No que a mim me toca, devo confessar-vos que é cada moca que apanho que nem vos conto.
Na última vez que a música se fez de visita em mim, havia perdido, poucas horas atrás e numa discussão besta, a Helena que me havia calhado em fortuna. De forma que...
Oh, que se lixem as estorinhas da Helena. Já passaram trinta anos, bolas! Agora quero é ficar com Mr. Soul.
Amanhã concluímos a conversa...

Eu não bebo álcool

Já o disse, mas vou repeti-lo só para que parem - por aqui - certas insinuações:
Eu não bebo álcool!
Eu quando bebo, é whisky, vinho, caipirinha...
Ah! - interrompe o espertinho - mas todas essas bebidas têm uma percentagem de álcool!
Pois!, mas também a água tem hidrogénio...e eu NÃO BEBO HIDROGÉNIO!

domingo, 27 de Julho de 2008

A Dialética (replay)

Heraclito visita a cidade do Porto, no ano de 540 a.c, e perante a perplexidade de Rui Rio saca do trangalho e dá uma grande mijadela para o rio Douro, enquanto exclama:
MIJO, MAS NÃO MIJO PARA AS ÁGUAS DO MESMO DOURO!
E foi assim que nasceu a dialética, penso eu!

Fotoshow...

Um dia, certo dia, colocara-lhe a foto numa linda moldura, bem pertinho de mim ao adormecer. E assim adormeci, séculos de noites, na miragem realizada de ela ali, nos meus serenos adormeceres.
Quando dei pela falta dela, ali, avisou-me o médico que ela já me tinha deixado, só e abandonado, há alguns séculos atrás.
Era o Dr. Alzheimer quem me falava! Havia que acreditar no que o homem me dizia.
Que remédio!
Mas que ainda adormeço com ela - de vez em quando - lá isso adormeço! E venham lá os Alzheimers todos do mundo dizer-me que não...!

Piorei ainda mais...

Acabou-se-me o gelo!
E agora?
Vou dar o restante whisky ao Boris, pois então!
____________

ps: dou mas é um cacete...! Vou já é comprar gelo à bomba de gasolina.

Piorei...

A cinemática trata de movimento, verdade?
Então a movimêntica trata de cinema?
Hein?

bichinhos...

Estou por aqui sem saber o que se passa por ali, ao fundo do quintal.
Em princípio confio no Boris, meu cão, meu amigo e irmão, para o caso de se passar algo de anormal na normalidade de ambos. Ele usa o ladrar e o correr desenfreado como sinais de alerta para essas eventualidades; eu uso...
Oh!, sei lá o que uso. Não uso nada, pois claro. Tenho lá eu paciência para me importar com ratos de quintal...
Ouço uns barulhitos lá ao fundo, é certo, mas que me importa?
Serão ETs? Serão ratos, apenas?
Cobras, talvez.
Quero lá saber, estou cheio de sono.
Adeus.

at first...

Relax!
A piece of information... first.
Ouviram, ó insanes?
Ouviram, mesmo?
Mesmo?
Atão, que se passa?
Porque calais o que julgais que é de calar em vós?
Nunca pensastes, cretinos, que o que mais calais de vós é o que mais queríamos ouvir?

J&B, 15 anos e alguns dias...

Hello!
Is there anybody in ?
Já sei que não, só perguntava por perguntar.
Aliás, como sempre fiz na vida. Perguntei, perguntei, mas nada, nem ninguém.
A bem dizer, ninguém e nada são para mim as duas entidades mais conhecidas, mais familiares...
______________
Queixinhas
Falta-te espírito boémio. Falta-te algo de artístico para que consigas viver sem airbags, sem família, sem fotos e sem qualquer memória...
Não consegues viver branca, em transparência, quase inexistente...
Falta-te qualquer coisa de essencial, mas que não sou eu.
Falta-te qualquer coisa...
Cheira-me...
Só isso.
Adeus.
_________________

um eléctrico que não se chamava desejo...

-Lembras-te de quando tu me...
-Oh!, se lembro. E de quando tu me...
-Ui!, nem me faças lembrar!
-Pois, pensas que só tu te lembras do que foi bom, não é, seu safado?
-Pois é.
-Ah!, e de quando tu disseste que...
-Nada disso...eu nunca disse tal coisa!
-Mentiroso, continuas mentiroso como sempre foste!
-Se voltas a chamar-me mentiroso eu...
-Tu? Tu...quê? Hein?
Passava o eléctrico das cinco. Pulei feito louco para o lado do maquinista e até hoje o raio desse eléctrico não chegou a estação nenhuma.
Fosga-se! Pare lá essa geringonça, ó meu! Já quase tenho netos, porra!

sábado, 26 de Julho de 2008

Haja paz...

Há dias em que me apetece vomitar a vida toda que degluti, mas não evacuei, e que me está entalada no cérebro, no estômago, nos intestinos, nos olhos ou na raiva.
Há dias em que não compreendo como as pessoas não se matam à toa, nas cidades, em todo o mundo e apenas porque sim.
Há dias que não percebo como a maioria de nós já percebeu que as coisas não se resolvem deste jeito...
Há dias do caralho. Só vos digo, meus:
A paz no mundo é um milagre, podeis crer!

penso, logo desisto!

Eu sou o eu que sou quando o eu que sou não é ele sozinho. Não, ele é ele mais a sua circunstância. A minha, pois então.
Mais ou menos isto dizia o velho Ortega, que deus tem.
Ora a minha circunstância - já que falo nela - neste momento é uma merda. Sempre foram uma merda, aliás, as circunstâncias que se me depararam no ser quotidiano. Logo, o eu que eu poderia ser esteve sempre condenado - logo à partida - já que se somado às circunstâncias a coisa iria ficar mais preta ainda.
Viram agora como não nos adianta alimentar sonhos de ser quando a nossa circunstância está na merda que está?

sexta-feira, 25 de Julho de 2008

Fucked fashion

Se me voltam a dizer que os blogs estão na moda, mudo-me já para o século XIX. Agarro na minha velha canetinha de ir molhando o aparo no tinteiro e acabo já com a parvalheira.
Detesto as coisas da moda no tempo delas estarem na moda.
Quando saírem desse bimbo estatuto, logo verei se...
___________
ps: Por falar nisso, já me ia esquecendo que tenho de pensar o burro. Coitado, há tantas horas sem palha...

tesura é foda!

Como neste momento tenho a cabeça cheia de areia, caso tivesse também um mar - nela - poderia dizer que estava de férias na praia?
Vou experimentar olhar para a banheira, cheia, a ver se resulta.
Logo vos direi o resultado, camaradas do interior, tesos!

quinta-feira, 24 de Julho de 2008

easy...tiger!

Mas...
esta porra de desassossego
nunca mais sossega?

enjoos

Enjoo...
Palavra estranha, esta.
E escreve-se de forma tão esquisita - quase contra todas as outras que habitualmente escrevemos - que de facto deve significar uma coisa fodida de se suportar.
Começo a estar com enjoos, bem se vê.

apetites

Sei lá...
Apetece-me ficar feliz, precisamente agora que me apetece fingir que estou infeliz.
Apetece-me mentir-me.
Apeteceu-me dizer-me a verdade e mandar-me foder!
Para sempre!
Felizmente...

Holly...days and nights

Amanhã vou para férias.
Mudo-me para o andar de baixo. Viagem curta.
É mais fresco.
E passo a comer sempre fora, no quintal, que também é mais fresco.
Tinha pensado ir até à Jordânia, mas como o subsídio já se foi, fico-me por aqui, no quintal, a apreciar a relva a crescer - de dia - e os pirilampos a cagar lume, de noite.

quarta-feira, 23 de Julho de 2008

aquacultura, com ração para frangos

Os frangos de aviário agora têm espinhas?
Dourada e robalo são nomes de pitos, não são?
Fosga-se, já só como sardinhas assadas...e carapaus!

terça-feira, 22 de Julho de 2008

Dreaming...

Sonhei na cama um sonho de uma árvore dos sonhos que plantei no meu quintal.
Raios!, esqueci-me dos sonhos que enxertei na árvore, por isso é que não me lembro agora do sonho que sonhei com a árvore dos sonhos...
Que porra!

No excuses needed

Peço desculpa por estes monólogos, mas quem vos manda a vós, perfeitas criaturas, quererem ser existentes nos diálogos da minha insensatez?
Das minhas mágoas?

Deep waters

Confiar nela, nem por sombras.
Confiar nela, nem por dúvida de mim.
Confiar nela, nem por ela.
...O que para mim seria crucial.
___________
ps- estou a começar a ficar básico.

Sleeping away...

Dormir...
Dormir...
Dormir...
É risível tanto dormir. É escandaloso tanto dormir.
Gente: faltam-nos segundos para terminarmos, para nos finarmos, para nos apagarmos, fenecermos, desaparecermos, inexistenciarmo-nos...
Ficarmos nada, porra!
Mas está bem!, durmam, durmam mas depois não me venham dizer que não avisei!

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